O programa Move Brasil, criado pelo governo federal para estimular a renovação da frota de caminhões, entra na reta final com uma distorção na distribuição do crédito: os R$ 9 bilhões destinados às transportadoras foram rapidamente comprometidos, enquanto cerca de R$ 1 bilhão reservado aos caminhoneiros autônomos ainda não foi acessado.
Como mostrou reportagem da Agência Transporte Moderno na última sexta-feira (27), a demanda das empresas consumiu praticamente todo o volume disponível em menos de três meses — o que acabou concentrando o saldo remanescente nos transportadores independentes, justamente o segmento com maior envelhecimento de frota e menor acesso histórico a financiamento.
O ritmo de execução também chamou atenção do mercado. Relatos de concessionárias e instituições financeiras indicam que o crédito praticamente desapareceu na ponta antes mesmo do prazo oficial. Já o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) segue reportando execução parcial dos recursos.
O caminhoneiro Anderson Cleber Zamperlini relatou à reportagem que não chegou a tentar acessar o crédito nesta edição do programa, após experiências frustradas anteriores. “Eu só fiquei sabendo, eu não acessei, não sei como acessar. Quando teve o Pró-Caminhoneiro, eu fui atrás, mas não tive retorno algum. A gente acaba desanimando. Isso aí fica com as empresas grandes ou com autônomos que já têm vários caminhões. A gente pequeno, com um caminhão só, não pega”, afirma.
Com um caminhão Volkswagen 9.150 de 2008, utilizado no transporte de móveis e estofados, Zamperlini afirma que teria interesse em renovar o veículo, mas não vê condições viáveis de acesso ao financiamento
Na avaliação do presidente da Anef, associação que representa os bancos de montadoras, Enilson Sales, o esgotamento da linha para transportadoras reposicionou o foco do programa e já começa a provocar reação no mercado, especialmente entre montadoras e instituições financeiras ligadas ao crédito de veículos pesados.
“A partir do momento em que os R$ 9 bilhões destinados às transportadoras foram comprometidos, o foco passa a ser o caminhoneiro autônomo. Nesse contexto, é muito provável que os bancos estejam criando campanhas para atrair os caminhoneiros autônomos para o Move Brasil.”, afirma.
Apesar desse movimento comercial, Sales ressalta que o principal entrave continua sendo o modelo operacional do crédito via BNDES. “No crédito convencional, como o CDC, a análise é feita diretamente pelo banco, com uma esteira mais simples e ágil. No caso do banco de fomento, há uma dinâmica diferente: existe um agente financeiro repassador, responsável por estruturar a operação, reunir a documentação e submeter ao banco de fomento, que então libera os recursos”, explica.
Esse processo exige o cumprimento de uma série de pré-requisitos formais. “O BNDES trabalha com uma lista de exigências que precisam ser atendidas. Nem sempre os caminhoneiros autônomos têm a documentação organizada ou atualizada — e, muitas vezes, sequer têm conhecimento de que isso é necessário para acessar esse tipo de crédito.”
Além da burocracia, há um fator estrutural ligado ao perfil do público. “O que limita o acesso não é a complexidade em si, mas a baixa formalização e a falta de hábito de operar com linhas do BNDES”, diz.
Volvo quer destravar crédito
Diante da dificuldade de acesso dos autônomos, montadoras passaram a atuar de forma mais ativa para acelerar a utilização dos recursos disponíveis. A Volvo lançou uma oferta específica dentro do programa, com taxa de 0,99% ao mês para caminhoneiros autônomos interessados na aquisição de modelos da linha VM, nas versões 4×2 e 6×2. O financiamento é feito por meio do Banco Volvo e está condicionado à disponibilidade de recursos do programa.
Além dos juros reduzidos, a oferta inclui um ano do Plano de Serviços Azul, com manutenção preventiva, e condições diferenciadas de seguro integradas ao financiamento.
“O Move Brasil teve grande adesão entre frotistas. Agora estamos fazendo essa oferta especial para motivar a renovação também pelos motoristas autônomos”, afirma Alcides Cavalcanti, diretor executivo da Volvo Caminhões. Segundo a empresa, ainda há espaço relevante para contratação dentro da fatia destinada a esse público. “Dos R$ 1 bilhão destinados aos autônomos, cerca de 60% ainda estão disponíveis, mas esses recursos devem se esgotar rapidamente”, diz Cavalcanti.
O desempenho do programa levanta questionamentos sobre sua efetividade em atingir o público mais sensível à renovação de frota. Embora tenha destravado rapidamente a demanda das empresas, a iniciativa encontra dificuldades para alcançar caminhoneiros autônomos, que operam com veículos mais antigos e menor capacidade de investimento.
Com prazo limitado — até maio ou até o esgotamento dos recursos — cresce o risco de que parte da verba destinada a esse segmento não seja utilizada integralmente. Ao mesmo tempo, o setor já pressiona por novos aportes, em meio à falta de previsibilidade para a continuidade da política.
Impacto para autônomos
Ao comentar críticas de que o programa ainda não teria produzido impacto relevante para os caminhoneiros autônomos, o ministro do Ministério do Desenvolvimento da Indústria e Comércio (MDIC) e vice-presidente da república, Gerlado Alckminn, destacou que a política foi estruturada com três pilares para ampliar o acesso desse público: redução da taxa de juros (de patamares próximos a 23% para cerca de 13%, podendo chegar a 12% com reciclagem do veículo antigo), reserva exclusiva de recursos para a categoria e possibilidade de financiamento também para caminhões seminovos, até Euro 5.
Outro eixo em estudo é o incentivo à retirada de caminhões antigos de circulação. Segundo o vice-presidente, cerca de 300 mil veículos com mais de 20 anos ainda operam no país. A ideia é oferecer condições mais vantajosas para quem aderir à reciclagem da frota, reforçando ganhos ambientais e de eficiência.
Para ele, a consolidação desses instrumentos é decisiva para que o Move Brasil deixe de ser uma medida emergencial e se transforme em uma política contínua de modernização da frota nacional.
O vice-presidente afirmou também que o governo trabalha na criação de um funding permanente para sustentar a política de renovação de frota, incluindo articulação com a Petrobras e a estruturação de um fundo vinculado ao Ministério dos Transportes.
“A nossa proposta é ter um programa permanente. Para isso, precisamos de um funding para equalizar essa taxa de juros”, disse. Segundo ele, o principal entrave segue sendo o custo do financiamento.
“Qualquer taxa acima de 10% é alta para financiar um bem durável”, afirmou. A discussão agora se concentra na continuidade do programa após o prazo atual, com o mercado pressionando por previsibilidade e novas fontes de recursos diante do esgotamento acelerado da linha.
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