A intensificação da fiscalização do piso mínimo do frete rodoviário de cargas e o endurecimento da atuação da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e Agência Naciona lde Petróleo (ANP) começam a redesenhar a dinâmica do transporte rodoviário de carga no Brasil. Mas, na avaliação do CEO da transportadora ABC Cargas, Danilo Guedes, o movimento regulatório ainda não enfrenta o principal problema estrutural do setor: o desequilíbrio na formação de preços e na negociação entre embarcadores e transportadoras
“Nós estamos totalmente a favor de regular e fiscalizar para equilibrar o mercado. O problema é que estamos falando de custo mínimo e não de frete mínimo”, diz, empresário da ABC Cargas. Segundo ele, a tabela em vigor não representa o preço final da operação e pode gerar distorções na prática comercial, já que não inclui margem nem impostos.
Guedes descreve o atual momento como um ambiente de “tempestade perfeita”, com pressão simultânea de custos, volatilidade internacional e juros elevados, o que amplia a complexidade da operação logística. Para o executivo, o endurecimento da fiscalização tende a ter impacto relevante na relação entre transportadoras e embarcadores, especialmente os grandes contratantes, mais expostos a riscos de compliance e reputação.
“Se a fiscalização realmente entrar em ação e pegar, o embarcador vai passar a ter um risco jurídico e financeiro. Esses grandes embarcadores não querem exposição de marca”, afirma. Na avaliação de Guedes, esse movimento pode ampliar o poder de barganha das transportadoras, ao elevar o custo de descumprimento da regra. Ainda assim, ele ressalta que o setor segue estruturalmente pressionado na negociação. “O nosso problema é que o transporte tem pouca força. A gente fica descoberto.”
Frete de retorno e diesel
Um dos pontos mais sensíveis da mudança regulatória, segundo ele, está na reprecificação do frete de retorno — especialmente em operações com contêineres. “Antes, muitas vezes o custo de retorno já estava embutido no frete de ida. Agora existe uma tabela mínima e isso muda completamente a lógica”, diz.
Na prática, transportadoras e clientes terão de renegociar contratos para equilibrar a operação logística entre ida e volta, o que pode pressionar custos em cadeias mais complexas.
O diesel continua sendo um dos principais vetores de impacto no setor, representando cerca de 40% a 45% do custo operacional de uma transportadora, segundo Guedes. “Não tem como absorver aumento relevante sem repassar”, afirma. Ele diz que parte dos reajustes já foi negociada com clientes, incluindo multinacionais, embora algumas tratativas ainda estejam em andamento.
No mercado internacional, os impactos são ainda mais intensos. A ABC Cargas atua em países como Chile e Peru, onde os reajustes chegaram a níveis elevados e, em alguns casos, houve até falta de combustível. “No Peru, o diesel chegou a R$ 9,70. Em alguns pontos, falta combustível. Fora do Brasil a situação é pior.”
Investimentos com cautela
Mesmo diante do cenário de custos elevados e incertezas regulatórias, a ABC Cargas mantém seu plano de investimento em frota para 2026 na ordem de R$ 10 milhões. “Talvez a gente segure um pouco um ou outro investimento, mas precisa continuar investindo. Se você para, perde o timing do mercado”, afirma. A empresa projeta crescimento de cerca de 5% no ano, mantendo o ritmo anterior, apesar do ambiente macroeconômico mais adverso.
Além da regulação do frete e da pressão de combustíveis, Guedes cita a reforma tributária como mais um fator de incerteza para o setor. “Não há algo que afete só a ABC. Afeta todo mundo de alguma maneira”, diz.
Apesar disso, ele afirma que a estratégia da companhia seguirá baseada em disciplina operacional e eficiência. “Eu não tenho controle sobre câmbio, política ou cenário internacional. Tenho controle sobre como executo meu negócio.”
Para Guedes, o conjunto de fatores — fiscalização mais rígida, pressão de custos e ambiente econômico instável — tende a gerar distorções no mercado, com parte das empresas podendo aceitar fretes defasados para manter volume. Ainda assim, ele afirma que a ABC Cargas não pretende flexibilizar sua estratégia comercial. “Vamos priorizar equilíbrio econômico e transparência na negociação com clientes.”
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