Guerra no Oriente Médio pode travar investimentos do agro em caminhões no Brasil

Conflito eleva custos de fertilizantes e pressiona margens da safra 2025/26, ampliando incertezas sobre a renovação de frota

Aline Feltrin

Uma safra recorde e volumosa já não é, por si só, garantia de um ciclo de renovação da frota de caminhões no agronegócio brasileiro. Em um ambiente de juros elevados e endividamento ainda alto no campo, as decisões de investimento passaram a depender de uma equação mais complexa e menos previsível.

Nesse contexto, o volume de produção deixa de ser um indicador suficiente de capacidade de investimento. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira 2025/26 deve atingir cerca de 322,5 milhões de toneladas de grãos, mantendo o país em patamar historicamente elevado. Ainda assim, o resultado convive com margens mais pressionadas ao longo da cadeia, em razão de custos financeiros e operacionais mais altos.

As tensões no Oriente Médio entram agora nesse cálculo como um novo fator de incerteza, ao impactarem custos globais de insumos e pressionarem a rentabilidade no momento de planejamento da próxima safra.

A escalada do conflito já afeta o mercado internacional de fertilizantes, um dos principais componentes do custo de produção agrícola no Brasil. A volatilidade em energia e em commodities químicas aumenta a incerteza sobre os custos da próxima temporada.

Para o professor da Fundação Dom Cabral Paulo Resende, especialista em logística e supply chain, o efeito do conflito vai além da oscilação de preços. “O agronegócio brasileiro opera hoje em um ambiente global muito mais instável. Choques geopolíticos se transmitem rapidamente para custos de produção e para a logística”, afirma.

Segundo ele, o principal impacto é a perda de previsibilidade. “Não é apenas o aumento de preço, mas a incerteza. Isso afeta diretamente o planejamento de investimentos no campo e na cadeia de transporte”, diz. “Mesmo com safras elevadas, o produtor passa a tomar decisões em um ambiente de risco ampliado, o que reduz a propensão a investimentos de longo prazo”, completa.

Juros altos e endividamento

Antes mesmo do novo choque geopolítico, o mercado de caminhões já enfrentava uma desaceleração importante no Brasil. O ambiente de juros elevados encareceu o crédito e reduziu a capacidade de financiamento de veículos pesados, altamente dependentes de linhas de longo prazo. Além disso, o alto endividamento de parte do agronegócio e o mercado de seminovos mais travado reduziram o giro de frota, criando um efeito em cadeia sobre transportadoras e produtores.

Nesse cenário, o consultor do setor logístico e automotivo, Roberto Leoncini, reforça que a relação entre safra e caminhões mudou estruturalmente. “A safra continua sendo importante, mas deixou de ser determinante para o ciclo de renovação da frota”, afirma.

“Hoje o investimento em caminhões depende muito mais de crédito, juros e liquidez do mercado de usados do que do volume produzido no campo”, diz. Segundo ele, o mercado se tornou menos previsível: “o agro ainda é um motor do transporte, mas perdeu a linearidade. O ciclo ficou mais financeiro e menos agrícola.”

Safra forte não significa investimento

A leitura combinada dos especialistas indica que a lógica histórica de que uma safra forte impulsiona automaticamente investimentos em transporte deixou de valer na mesma intensidade.

Segundo o professor Paulo Resende, o cenário atual de maior instabilidade global reduz a previsibilidade das decisões de investimento no agronegócio e na cadeia de transporte. “O ponto central hoje não é apenas o nível de produção, mas a previsibilidade do ambiente econômico e geopolítico, que afeta diretamente decisões de investimento de longo prazo.”

O crescimento da produção agrícola continua sendo relevante, mas não suficiente para sustentar sozinho decisões de investimento em ativos como caminhões. Hoje, o produtor e o transportador precisam considerar simultaneamente custo do dinheiro, risco global e liquidez do mercado de usados — uma combinação que torna o ciclo mais instável.

Para Roberto Leoncini, essa mudança já alterou estruturalmente a relação entre safra e renovação de frota. “A safra continua sendo importante, mas deixou de ser determinante para o ciclo de renovação da frota.”

Nas palavras do consultor, hoje o investimento em caminhões depende muito mais de crédito, juros e liquidez do mercado de usados do que do volume produzido no campo.

Seja como for, a combinação entre juros altos, endividamento no campo e volatilidade geopolítica tende a prolongar o ciclo de desaceleração do mercado de caminhões no Brasil. Nesse contexto, a entrada de um novo elemento de incerteza global pode aprofundar a desaceleração. Se esse cenário se confirmar, até programas de estímulo à renovação de frota, como o Move Brasil, podem não ser suficientes para reverter o ritmo mais lento de investimentos no setor.

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