O avanço recente do preço do diesel já impacta diretamente a estrutura de custos dos operadores logísticos no Brasil, levando à renegociação de contratos e ampliando o risco de repasse ao consumidor final. O combustível pode representar até 40% dos custos operacionais do setor.
O movimento ocorre em meio à volatilidade internacional dos preços do petróleo, pressionados por tensões geopolíticas no Oriente Médio.
Levantamento da ABOL, realizado entre 20 e 23 de março com 28 empresas associadas, mostra que 25 delas relataram impactos diretos da alta do combustível. A percepção média de aumento foi de 19,4%, em linha com a variação observada nos dados da ANP.
Entre os estados com maior pressão, os aumentos variaram de 21,3% a 27,8%, com destaque para Bahia, Tocantins, Goiás, Mato Grosso, Santa Catarina e Maranhão.
Segundo Marcella Cunha, diretora executiva da ABOL, o impacto já está sendo repassado ao longo da cadeia. “Todos os operadores logísticos estão sentando com seus clientes para repactuar contratos, porque o incremento do principal insumo, que é o diesel, é substancial. Não há como absorver esse custo sozinho”, afirma.
Abastecimento irregular
Além da alta de preços, operadores relatam dificuldades pontuais de abastecimento, especialmente em estados como São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
De acordo com a ABOL, há sinais de restrição na venda em postos e incerteza quanto à reposição, o que tem levado empresas a rever rotas, fornecedores e estratégias de abastecimento.
O cenário é agravado pela dependência externa: cerca de 30% do diesel consumido no país é importado, segundo estimativas do setor.
Renegociações já superam previsões iniciais
A pressão sobre os custos já altera a dinâmica contratual no setor. Segundo a entidade, reajustes inicialmente estimados entre 3% e 5% passaram a girar na casa de 10% para manter a viabilidade das operações.
“É inevitável. O operador repassa ao embarcador, que por sua vez repassa ao consumidor. Isso contribui para uma inflação mais disseminada, especialmente se o cenário internacional persistir”, afirma Marcella Cunha.
Impacto da escala 6×1
Outro fator de preocupação é a possível revisão da escala de trabalho 6×1, amplamente utilizada em operações logísticas contínuas. A ABOL prepara uma nota técnica para avaliar os impactos da mudança. Segundo Marcella Cunha, a alteração exigiria aumento de quadro e reestruturação operacional.
“A nossa maior preocupação é o aumento do custo trabalhista. Será necessário contratar mais pessoas, abrir novos turnos e lidar com mais encargos”, afirma.
Para a executiva, o momento reforça a vulnerabilidade da logística brasileira à volatilidade dos combustíveis fósseis.
“Quando há uma crise internacional, como a atual, o impacto chega rapidamente ao Brasil. Isso mostra o quanto ainda somos dependentes do diesel e do transporte rodoviário”, diz.
Nesse contexto, a entidade reforça a defesa da multimodalidade como estratégia para reduzir riscos e custos no longo prazo. “Defendemos a multimodalidade como política pública, o que passa por maior coordenação entre agências reguladoras e ministérios responsáveis pelo setor. É fundamental integrar esses atores para alinhar diretrizes, reduzir sobreposições e dar mais eficiência à cadeia logística como um todo, envolvendo todos os elos institucionais e governamentais”, afirma.
Cenário desafiador
Apesar do cenário desafiador, a executiva demonstra otimismo com a capacidade de adaptação dos operadores logísticos.
“Vejo um setor resiliente, buscando alternativas, investindo em ESG e tentando reduzir a dependência do diesel. Há operadores estruturando áreas dedicadas à sustentabilidade para desenvolver novas soluções”, afirma.
Para Marcella Cunha, o momento reforça a necessidade de uma transformação estrutural da logística no país, com foco em eficiência operacional, diversificação energética e maior integração entre modais.
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