Em um setor ainda marcado por ineficiências logísticas ao longo de toda a cadeia — da indústria ao varejo —, a Frasle Mobility decidiu antecipar um gargalo que poderia comprometer sua expansão: a saturação do centro de distribuição. A resposta veio em forma de tecnologia.
A companhia inaugurou, em Extrema (MG), um sistema de automação logística no mercado de reposição automotiva da América Latina, baseado em robótica, inteligência de dados e integração de ponta a ponta da cadeia de suprimentos. A iniciativa faz parte de um plano estratégico desenhado em 2024, com horizonte até 2029, e que já precisou ser acelerado diante de um crescimento acima do esperado, especialmente da marca Nakata.
“O setor como um todo ainda carece de eficiência logística. Quando conseguimos garantir previsibilidade e nível de serviço, o distribuidor reduz estoques e ganha confiança para operar com menos gordura”, afirma Marcelo Tonon, diretor executivo de supply chain para a América Latina.

Saturação antecipada e decisão estratégica
O planejamento original previa que a capacidade do centro de distribuição seria atingida ao longo do ciclo 2025–2029. No entanto, o avanço do market share e a ampliação do portfólio anteciparam esse limite.
Diante disso, a empresa avaliou alternativas tradicionais, como expansão física ou abertura de um novo CD na região. Ambas esbarraram em restrições como falta de espaço, custo elevado do metro quadrado em Extrema — pressionado pelo avanço do comércio eletrônico — e escassez de mão de obra em uma região de pleno emprego. A escolha pela automação, segundo a empresa, equilibra custo, risco e capacidade de escala.
Novo modelo reduz tempo e custo logístico
Batizado de 4Mobility, o sistema altera a lógica operacional do armazém. Em vez de operadores percorrerem grandes distâncias, robôs autônomos levam os itens até estações de separação (goods-to-person). A tecnologia adotada já é amplamente utilizada em operações de e-commerce e centros de distribuição de alta performance no mundo, mas, segundo Marcelo Tonon, esta é a primeira aplicação em larga escala no setor de reposição automotiva na América Latina.
O impacto é direto na produtividade: processos que levavam de quatro a seis horas passam a ser realizados em cerca de 30 minutos. Cada estação pode alcançar até 200 linhas por hora, ante cerca de 200 linhas por dia no modelo manual. A tecnologia também permite armazenar a mesma volumetria em cerca de 30% da área anteriormente necessária, ampliando a capacidade sem expansão física.
Segundo a companhia, o centro de distribuição de Extrema opera com 16 linhas de produtos e cerca de 6.500 itens. Desse total, 76% são elegíveis ao sistema automatizado. Neste primeiro mês de operação, aproximadamente 40% dos produtos elegíveis já foram migrados para o novo modelo, e a expectativa é que a totalidade esteja integrada ao sistema até junho.
A adoção da tecnologia também reduz significativamente o deslocamento interno de pessoas e eleva a produtividade das operações, reforçando os ganhos de eficiência.
A empresa projeta que, ao atingir plena capacidade — com 50 mil bins e 100 robôs até 2029 —, o custo logístico poderá cair pela metade.
O movimento reflete uma transformação mais ampla no aftermarket automotivo, marcada por maior diversidade de portfólio, pedidos menores e mais frequentes e crescente digitalização.Nesse contexto, a logística deixa de ser apenas suporte operacional e passa a ocupar papel central na estratégia de crescimento — e de diferenciação competitiva.
Segurança e eficiência operacional
Outro fator relevante foi a redução de riscos. No modelo automatizado, elimina-se a circulação simultânea de pessoas e empilhadeiras e reduz-se a necessidade de operações em altura.
Além disso, há ganhos energéticos: o consumo de robôs é significativamente inferior ao de equipamentos tradicionais, contribuindo para eficiência operacional e redução de custos ao longo do tempo.
A estratégia da companhia vai além da logística interna e passa por uma visão integrada da cadeia, da matéria-prima à aplicação final pelo mecânico. Com maior previsibilidade e capacidade de fracionamento de pedidos, a empresa busca ganhar relevância na decisão de compra dos distribuidores em um mercado altamente competitivo.
Investimentos e crescimento acelerado
A companhia não revela o montante investido na nova solução, mas afirma que o projeto está inserido na estratégia de investimentos da Randoncorp, controladora da Frasle Mobility.
O plano, que cobre o período de 2024 a 2028, mantém foco em expansão internacional, aquisições estratégicas, digitalização, automação e aumento de eficiência operacional. A Randoncorp tem trabalhado com investimentos anuais na faixa de R$ 400 milhões a R$ 500 milhões, voltados à ampliação de capacidade, produtividade e novos negócios.
Os aportes ocorrem em paralelo a um ciclo de forte crescimento. Em 2025, a Frasle Mobility registrou receita líquida consolidada de R$ 5,5 bilhões, alta de 38,5% na comparação anual, impulsionada principalmente pela aquisição da mexicana Dacomsa e pela diversificação geográfica.
O Ebitda ajustado somou R$ 975,1 milhões, com margem de 17,8%. No mercado externo, as receitas atingiram US$ 520,1 milhões, avanço de 79,5%.
No quarto trimestre, apesar do crescimento da receita, houve compressão de margens, refletindo o avanço dos investimentos e a integração das operações. Ainda assim, a alavancagem líquida caiu de 2,6 vezes no primeiro trimestre para 1,5 vez ao final de 2025. Os investimentos globais totalizaram R$ 190,5 milhões no ano, alta de 14,9%.
Controlada pela Randoncorp, a Frasle Mobility mantém presença em 13 países, com 12 plantas industriais, nove centros de distribuição e atendimento a clientes em mais de 125 mercados, sustentada por um portfólio de mais de 43 mil referências.
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