A transição para combustíveis alternativos no transporte pesado avança no Brasil mesmo em um ambiente de crédito restrito e renovação de frota mais lenta. Nesse cenário, a estratégia da Scania tem o gás como eixo central de crescimento no curto e médio prazo.
A companhia projeta vender cerca de 500 caminhões movidos a gás no Brasil até dezembro de 2026, consolidando o país como seu principal mercado global para essa tecnologia dentro da América Latina. O número reforça a escala de uma estratégia que já soma mais de 2 mil unidades comercializadas desde 2019.
O avanço ocorre em um momento em que transportadoras ainda enfrentam dificuldades para renovar suas frotas. Juros elevados seguem pressionando o custo do financiamento e adiando a troca de caminhões, o que limita a entrada de veículos mais eficientes — inclusive os movidos a combustíveis alternativos.
Apesar disso, a Scania mantém sua trajetória de expansão em soluções de baixo carbono, combinando gás natural, biometano e eletrificação como pilares complementares da descarbonização do transporte.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, o CEO da operação latino-americana resumiu o contexto atual ao afirmar que a “guerra impulsiona alternativas ao diesel e o juro alto trava a renovação da frota”.
O executivo também destacou o apoio da empresa ao aumento da mistura de biodiesel no diesel para até 20%, como medida de transição imediata para reduzir emissões sem depender de mudanças estruturais da frota.
O cenário internacional mais volátil, influenciado por tensões geopolíticas, reforça a importância da diversificação energética no transporte — ainda que esse não seja o principal vetor da estratégia da companhia no Brasil.
Vale lembrar que, apesar da evolução, o gás ainda responde por menos de 1% dos emplacamentos totais de veículos pesados, enquanto o diesel mantém cerca de 98% de participação, evidenciando o estágio ainda inicial dessa transição.
Dados da Anfavea, associação que representa as montadoras instaladas no país, mostram que os veículos pesados movidos a gás — que incluem caminhões e ônibus — somaram 139 unidades no primeiro bimestre de 2026, sendo 72 em janeiro e 67 em fevereiro. No mesmo período de 2025, foram 104 unidades (65 em janeiro e 39 em fevereiro), o que representa crescimento de 33,7%.
Apesar da alta expressiva, o avanço ocorre sobre uma base ainda reduzida. Ao longo de 2025, os emplacamentos mensais de veículos pesados a gás oscilaram, na maior parte do ano, entre 40 e 80 unidades, o que indica um mercado ainda restrito, com volume anual na casa de algumas centenas de veículos — estimado entre 600 e 800 unidades no acumulado do ano.
Embora a entidade não detalhe a divisão por tipo de veículo, a maior parte desse volume é composta por caminhões, refletindo o avanço mais consistente da tecnologia no transporte de cargas.
Liderança no gás e um mercado em expansão
No mercado brasileiro de caminhões a gás, a Scania mantém liderança em escala e maturidade tecnológica, fruto de uma trajetória iniciada há mais de uma década com testes, demonstrações e posterior comercialização em larga escala.
Desde as primeiras operações em 2014 com ônibus a biometano até a consolidação da linha de caminhões a gás lançada em 2018, a empresa construiu a base que hoje sustenta sua posição dominante no segmento.
Em paralelo, o ecossistema começa a se ampliar com a entrada de novos fabricantes e modelos de negócio.
A Iveco, por exemplo, avança de forma mais tímida no segmento de caminhões a gás no Brasil, com entregas direcionadas a grandes frotistas dentro de sua estratégia multienergética. A companhia estrutura seu portfólio Alternative Power, que reúne soluções a gás, elétricas e conceitos multifuel — como o eDaily (elétrico) e o Daily Multifuel (capaz de operar com gás natural, biometano e etanol) — além da produção de veículos a gás na Argentina.
No Brasil, a Iveco vem avançando de forma mais tímida com entregas de caminhões a gás a grandes frotistas, como parte desse portfólio diversificado. Operações como a venda de 55 caminhões para a Reiter Log — dos quais 15 são movidos a gás natural e biometano — e a negociação de 28 unidades do S-Way NG para o Grupo Cetric demonstram o movimento da marca no país, ainda que em escala menor comparada à Scania.
A importadora Green Cargo, por sua vez, trouxe ao país os caminhões pesados a gás da JAC Motors, com operação que combina venda, locação, manutenção e suporte de abastecimento diretamente ao cliente — um modelo de negócio completo que busca reduzir barreiras de adoção dessa tecnologia no Brasil.
A Volkswagen Caminhões e Ônibus também amplia sua presença no segmento com o Constellation a biometano, já aplicado em operações como a coleta de resíduos da EcoUrbis, em São Paulo. Mais recentemente, o modelo entrou em fase de testes com a Loga, empresa responsável pela coleta de resíduos na capital paulista, ampliando o uso do biometano em operações reais e reforçando o potencial da tecnologia em aplicações urbanas com ganhos relevantes de emissões no ciclo completo.
No conjunto, o movimento mostra que o mercado brasileiro de combustíveis alternativos deixa de ser nicho e passa a ganhar densidade comercial, com diferentes estratégias convergindo para o mesmo ponto: reduzir a dependência do diesel.
Biometano e gás entram na agenda
Mais do que uma resposta tecnológica, o avanço dos combustíveis alternativos reflete uma mudança estrutural na matriz energética do transporte rodoviário brasileiro. O biometano, produzido a partir de resíduos agrícolas e urbanos, ganha protagonismo por combinar menor emissão com produção local e previsibilidade de custo.
Esse movimento se soma à expansão do gás natural veicular em operações de longa distância, criando uma alternativa intermediária entre o diesel e a eletrificação.
Para a Scania, o foco é consolidar essa transição de forma gradual, mas consistente, sustentada por investimentos contínuos. Entre 2016 e 2024, a empresa aportou cerca de R$ 4 bilhões no Brasil e prevê mais R$ 2 bilhões até 2028, direcionados à fábrica, desenvolvimento de produtos e agenda de sustentabilidade.
O resultado é um mercado em reorganização: o diesel ainda domina a matriz, mas já divide espaço com soluções que, até poucos anos atrás, eram restritas a projetos-piloto.
Na prática, o gás se consolida como a tecnologia de transição mais madura hoje disponível para o transporte pesado no país — enquanto o setor ajusta sua rota entre custo, emissões e segurança energética.
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