Restrição no diesel chega às bombas e acende alerta no transporte

Atrasos na entrega, limitação nos postos e alta do diesel pressionam transporte, em meio à queda das importações e tensão internacional

Aline Feltrin

A combinação de oferta mais restrita, demanda aquecida e pressão internacional já começa a afetar o abastecimento de diesel no Brasil. Relatos de falta pontual em postos, atrasos nas entregas e racionamento para grandes consumidores indicam um cenário de tensão no transporte rodoviário — ainda que, por ora, não haja desabastecimento generalizado.

Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que o preço médio do diesel S-10 chegou a R$ 7,35 na semana de 15 a 21 de março, acumulando alta de 19,5% desde o fim de fevereiro. Apenas na última semana, o avanço foi de 6,68%, refletindo a escalada das cotações internacionais do petróleo.

O movimento está diretamente ligado ao agravamento do conflito no Oriente Médio, que elevou o preço do barril no mercado global e encareceu o diesel importado — responsável por cerca de 30% do consumo nacional. Com o produto chegando ao Brasil até R$ 2,50 mais caro que o praticado internamente pela Petrobras, importadores reduziram as compras, pressionando ainda mais a oferta.

Nos primeiros dias de março, o volume importado caiu cerca de 60% na comparação anual, segundo a ANP, o que reduziu significativamente a disponibilidade do combustível no país. Ao mesmo tempo, a demanda segue elevada, impulsionada principalmente pela colheita da safra de soja, o que intensifica o consumo no transporte rodoviário de cargas.

Diante desse descompasso entre oferta e demanda, técnicos da ANP classificam o cenário como de risco para o abastecimento nacional, especialmente se a restrição nas importações persistir nas próximas semanas.

Gargalos na distribuição

Na ponta, os primeiros sinais de restrição já aparecem nas bombas. Caminhoneiros relatam episódios de falta temporária de diesel e necessidade de aguardar a reposição para conseguir seguir viagem.

“Parei às 18h e não tinha diesel, só iria chegar no outro dia”, afirma a caminhoneira Neildes Batista, do grupo de aplicativo de mensagens “As Estradeiras”, após parar em um posto em Uberlândia (MG).

Os relatos indicam que, mais do que uma ruptura no abastecimento, o país enfrenta neste momento um descompasso na logística de distribuição, com atrasos nas entregas e, em alguns casos, limitação na venda do combustível.

Segundo fonte ouvida pela Agência Transporte Moderno, o problema ainda é descentralizado, mas já atinge diferentes regiões do país. “O que temos observado não é uma falta ainda, mas um atraso, um racionamento nas entregas. Sentimos isso nas bases do Sul, com compras no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, e também em São Paulo, com fornecimento a partir de Paulínia. Há relatos de falta temporária em estados como São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso”, diz.

A percepção é semelhante entre transportadores, que já operam com restrições no abastecimento, especialmente fora das grandes redes de distribuição. “A grande maioria dos postos tem diesel. Mas quem compra de refinarias ‘bandeira branca’ não tem. Para nós, está racionado, mas não falta”, afirma Mário Sérgio Gabardo, CEO da Transportes Gabardo

Segundo o empresário, o impacto da restrição é desigual ao longo da cadeia. Empresas com contratos diretos com grandes distribuidoras seguem sendo atendidas, enquanto clientes que dependem de fornecedores intermediários enfrentam maior dificuldade para garantir o combustível. Nesse cenário, a prioridade de entrega tende a ser direcionada aos clientes recorrentes, o que deixa parte do mercado desabastecida.

Gabardo relata ainda sinais de racionamento e mudança de comportamento no mercado, com postos limitando o volume abastecido e agentes retendo produto diante da expectativa de novos aumentos de preços. Em algumas regiões do Rio Grande do Sul, os valores já superam R$ 8 por litro, com restrições de venda que variam conforme o perfil do cliente.

Além da dificuldade de abastecimento, o impacto econômico já é sentido nas operações. Segundo ele, uma viagem pode consumir mais de mil litros de diesel, o que eleva significativamente os custos diante da alta recente, sem que haja repasse proporcional no valor do frete. O resultado é uma compressão das margens, especialmente para autônomos e empresas de menor porte.

O executivo também aponta entraves operacionais, como limitações regulatórias para estocagem de combustível fora dos padrões autorizados, o que reduz a capacidade de reação das empresas em momentos de instabilidade no abastecimento.

Entidades do setor, por sua vez, ainda tratam o cenário como controlado. “Temos informações soltas de que falta diesel em um e outro ponto, mas tudo está funcionando sem grandes anormalidades”, informou o Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logística no Rio Grande do Sul (SETCERGS) à reportagem da Agência Transporte Moderno.

Apesar disso, há sinais mais concretos de escassez em algumas regiões. No Rio Grande do Sul, ao menos 142 municípios já enfrentam falta de diesel, o que tem levado prefeituras a priorizar serviços essenciais, como o transporte de pacientes, e suspender atividades que dependem de maquinário pesado.

Relatos de falta também surgem no Rio de Janeiro. Caminhoneiros apontam escassez de diesel S-10 na Região dos Lagos, ampliando a percepção de que a restrição, ainda que pontual, já atinge diferentes regiões do país.

Já na Baixada Santista (SP), não há registro de falta do combustível, mas alguns postos passaram a limitar o abastecimento a cerca de 300 litros por caminhão, como forma de gerenciar os estoques diante da incerteza na reposição.

Distribuidoras reforçam importação

Diante da pressão sobre a oferta, distribuidoras têm buscado alternativas para garantir o abastecimento. A Vibra Energia, por exemplo, dobrou o volume de importação de diesel para abril e afirma que não haverá falta do combustível em sua rede de postos com bandeira Petrobras.

Segundo o presidente da companhia, Ernesto Pousada, os estoques estão mais baixos, mas vêm sendo recompostos por meio de compras no exterior. A estratégia ocorre após o próprio setor alertar o governo e a ANP sobre riscos ao abastecimento nacional.

O movimento evidencia que, embora haja pressão no curto prazo, grandes distribuidoras estão conseguindo reorganizar a oferta — ainda que a custos mais elevados, em meio à disparada do petróleo no mercado internacional.

Impactos e risco de agravamento

Os efeitos já começam a se espalhar pela economia, com impacto direto sobre o transporte de cargas e atividades que dependem intensamente do combustível.

Entidades como Fecombustíveis, Abicom e Sindicom alertam para o risco de agravamento do cenário caso a redução das importações persista e defendem medidas coordenadas para garantir o abastecimento.

O governo federal já anunciou ações emergenciais, como a concessão de crédito extraordinário para o setor e a zeragem de tributos federais (PIS/Cofins), além de discutir alternativas envolvendo o ICMS com os estados. Ainda assim, agentes do mercado avaliam que a resposta pode ser insuficiente diante da velocidade da deterioração do cenário.

A Petrobras afirma que mantém suas refinarias operando em capacidade máxima e que está otimizando a logística para ampliar a oferta.

Com o conflito no Oriente Médio ainda em curso e o mercado internacional de petróleo volátil, o Brasil segue exposto a oscilações de preços e riscos na cadeia de suprimento.

Por ora, o país não enfrenta um desabastecimento generalizado, mas já convive com um mercado mais apertado — marcado por alta de preços, atrasos na distribuição e episódios pontuais de falta nas bombas.

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