Para 2026, a meta da FEVER é alcançar 500 veículos no Brasil, com predominância dos modelos FN1000 e FN1000 Plus, que devem responder por cerca de 90% da frota, além de uma fatia menor do FN1700. A companhia projeta crescimento gradual até atingir cerca de 1.200 unidades anuais em 2027, volume considerado necessário para viabilizar a estruturação de uma fábrica no país, com início de organização previsto para o segundo semestre daquele ano.
Recentemente, durante um evento sobre eletromobilidade promovido pelo LIDE em São Paulo, o prefeito Ricardo Nunes afirmou que, após o avanço na eletrificação da frota de ônibus, a cidade pretende ampliar a substituição também para caminhões a diesel que circulam no ambiente urbano. A sinalização reforça o potencial regulatório de grandes centros no avanço da transição energética e cria um ambiente que tende a favorecer empresas como a FEVER, que aposta em veículos elétricos e locação para ampliar a adoção no transporte de cargas.
A declaração ocorre em um contexto em que veículos comerciais e automóveis que circulam em áreas centrais respondem por cerca de 62% das emissões de CO₂ nesses ambientes. A discussão também dialoga com um cenário global em que aproximadamente 87% da população mundial vive em cidades, enquanto cerca de 80% da frota circula nesses espaços, concentrando mobilidade e emissões em apenas 13% do território.
Nesse ambiente, a FEVER vem estruturando sua estratégia no Brasil com foco em veículos comerciais elétricos voltados à logística urbana, combinando venda direta a frotistas e um modelo de locação por assinatura, que inclui manutenção, seguro e telemetria.
Para o CEO Nelson Füchter Filho, a estratégia da companhia parte da adaptação ao mercado local. Com experiência no setor automotivo, ele afirma que diferentes mercados têm características próprias e que iniciativas que não consideram essas particularidades tendem a fracassar. “O racional da FEVER é falar a língua do cliente. Tracionou, fez sentido, tem demanda, vamos substituir a importação”, resume.
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Parceria com fabricantes chineses
Segundo ele, a empresa mantém parceria com fabricantes chineses e assinou, em outubro de 2024, um protocolo com o governo de Santa Catarina para desenvolvimento de estudos tributários e de geolocalização para uma eventual planta industrial no estado. O projeto já está em andamento, ainda em caráter confidencial, e depende da evolução da demanda e da densidade de frota.
Antes da implantação de uma fábrica, a estratégia passa pela expansão da base instalada. O veículo elétrico da companhia entrou efetivamente em circulação no Brasil em junho de 2025, o que significa que a consolidação da operação ocorre em um período ainda recente. Mesmo assim, a FEVER afirma ter alcançado cerca de 16% de participação entre veículos comerciais elétricos abaixo de 3,5 toneladas no país, considerando o segmento de VUCs e chassis urbanos de carga.
No portfólio, a empresa compete com modelos como vans elétricas e picapes, mas destaca desempenho específico no segmento de veículos urbanos de carga. A expansão recente inclui um contrato fechado com um grande operador logístico para fornecimento de 100 unidades, que serão entregues entre março e maio. O acordo deve dobrar a densidade da frota da companhia em cerca de 90 dias, passando de aproximadamente 100 para 200 veículos apenas com esse cliente.
A linha 2026 do FN1000, que começa a ser entregue, marca um ciclo de dois anos de desenvolvimento voltado ao consumidor brasileiro. O veículo passou por processos de tropicalização, incluindo reforço de suspensão, ajustes no sistema de ar-condicionado e adaptações para uso em condições locais, considerando carga frequentemente acima da capacidade nominal. O desenvolvimento envolveu mais de 500 mil quilômetros de testes.
Locação e acesso
Outro pilar da estratégia é o modelo de locação, operado pela FEVER Fleet, que permite ao cliente acessar o veículo com custos mensais a partir de cerca de R$ 5.890, incluindo implemento e serviços associados. O modelo busca atender principalmente transportadoras e operadores que contratam motoristas agregados, segmento considerado prioritário pela empresa.
Na análise da companhia, o fator econômico é decisivo para a adoção. Em cinco anos de operação, a diferença de custo total entre um veículo elétrico e um equivalente a diesel pode chegar a cerca de R$ 190 mil por unidade. Enquanto um veículo a diesel acumula gastos próximos de R$ 260 mil em 250 mil quilômetros, o elétrico pode operar com cerca de R$ 75 mil no mesmo período, considerando energia, manutenção e operação.
Além do custo, a FEVER destaca ganhos operacionais e de segurança. Um veículo urbano a diesel exige múltiplas trocas de marcha ao longo do dia — cerca de 2.000 acionamentos de embreagem em operações típicas —, enquanto o modelo elétrico elimina esse esforço, reduzindo desgaste mecânico e melhorando a experiência do motorista. A operação automática também contribui para redução de erros humanos e riscos de acidentes.
Aposta na última milha
A experiência na última milha também é apontada como diferencial. O ambiente urbano, marcado por paradas frequentes, vibração e emissão de ruído e CO₂, é substituído por uma operação silenciosa e sem emissões locais. Os veículos elétricos da FEVER têm velocidade limitada a cerca de 85 km/h e contam com sistemas de regeneração de energia, que ampliam a autonomia em operações reais — em alguns casos, ultrapassando os 200 quilômetros projetados, dependendo do padrão de uso.
Do ponto de vista ambiental, a companhia afirma já ter evitado a emissão de cerca de 300 toneladas de CO₂ com sua frota em operação, utilizando dados de telemetria para monitorar desempenho e impacto.
A FEVER também adota uma estratégia industrial baseada em três etapas: SKD (montagem com conjuntos semidesmontados), CKD (kits completos desmontados) e, posteriormente, nacionalização gradual de componentes com fornecedores locais. A montagem inicial envolve cerca de 30 conjuntos no SKD, evoluindo para aproximadamente 500 itens no CKD, com aumento progressivo da cadeia produtiva no Brasil.

Fábrica em Santa Catarina
O projeto industrial prevê ainda o uso de incentivos estaduais e federais. Em Santa Catarina, a empresa conta com apoio da InvestSC, agência de atração de investimentos do estado, que pode auxiliar na estruturação de financiamento por meio de linhas do BNDES e outros mecanismos voltados a projetos produtivos de longo prazo. O estado também oferece benefícios relacionados a infraestrutura, diferimento de impostos e apoio técnico para implantação de plantas industriais.
A localização da futura fábrica ainda não foi definida, mas a escolha deverá considerar municípios com maior preparo regulatório e infraestrutura adequada para receber investimentos desse tipo. A FEVER também mantém diálogo com o governo estadual para obtenção de um regime especial, incluindo facilidades logísticas associadas ao uso de portos catarinenses, como Navegantes.
No pós-venda, a empresa utiliza parceiros estratégicos como a Bosch para manutenção e suporte técnico, ampliando a cobertura da frota e garantindo assistência preventiva e corretiva. A estratégia comercial inclui abordagem direta ao cliente, com equipes B2B, uso de veículos demonstrativos e contratos que permitem testes em operação real por até 90 dias antes da decisão de compra ou locação.
A entrada de novos clientes na frota costuma envolver múltiplos decisores dentro das empresas, incluindo áreas financeiras, logística e operação, o que reforça o caráter consultivo da venda. A FEVER aposta nesse modelo para consolidar sua presença no mercado e expandir sua base instalada, combinando escala operacional, redução de custos e apoio regulatório crescente em grandes centros urbanos.
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