Reforma tributária força reconfiguração da logística no país

Mudanças no modelo de consumo elevam exigência tecnológica e devem redesenhar redes logísticas no país

Valeria Bursztein

A implementação da reforma tributária sobre o consumo, que entra em fase de transição a partir de 2026, inaugura um novo ciclo de reorganização para o setor de transporte e logística no Brasil.

Responsável por cerca de 13% do PIB nacional, o segmento será diretamente impactado pela substituição de tributos como ICMS, ISS, PIS e Cofins por um modelo dual baseado na CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e no IBS (Imposto sobre Bens e Serviços).

A mudança altera não apenas a carga tributária, mas principalmente a lógica de incidência, que passa a ser baseada no destino. Na prática, isso tende a redesenhar fluxos logísticos, estratégias de distribuição e decisões sobre a localização de centros de armazenagem.

Eficiência substitui lógica fiscal

Com o enfraquecimento da guerra fiscal entre estados, incentivos regionais perdem relevância na definição da malha logística. A tendência é que as decisões passem a ser orientadas por critérios operacionais, como custo, prazo e nível de serviço.

Segundo Leopoldo Suarez, VP de Cliente, Estratégia e Mercado & Partner da nstech, esse movimento já começa a ser observado.

Leopoldo Suarez, VP de Cliente, Estratégia e Mercado & Partner da nstech

“A tendência é reduzir o peso da decisão fiscal e aumentar o peso da eficiência operacional. Empresas devem rever a localização de CDs e rotas com base em custo logístico e nível de serviço, e não mais em incentivos fiscais”, afirma.

De acordo com o executivo, ainda não há uma migração em massa, mas já existe um movimento consistente de revisão de redes logísticas, especialmente em operações historicamente estruturadas a partir de benefícios fiscais.

Sistemas e documentos fiscais

No curto prazo, os efeitos mais diretos recaem sobre a adaptação operacional das empresas. A partir de 2026, documentos fiscais eletrônicos como NF-e, CT-e e NFS-e precisarão incorporar o novo modelo de tributação, incluindo o destaque de CBS e IBS.

“O impacto mais imediato estará na adaptação dos documentos fiscais eletrônicos, no cálculo tributário por operação, na revisão cadastral e na integração entre sistemas”, diz Suarez. Segundo ele, mesmo em um ano de transição, as empresas já precisam estar preparadas. “Há risco de autuação para empresas que não estiverem emitindo corretamente dentro das exigências da reforma.”

Um dos principais desafios é a necessidade de integrar áreas que historicamente operavam de forma separada dentro das empresas. “A principal mudança é sair de um modelo cheio de exceções para uma lógica mais padronizada, com tributação no destino e maior necessidade de controle e integração das informações fiscais”, afirma o executivo.

Nesse contexto, a reforma deixa de ser um tema restrito à área tributária e passa a impactar diretamente a operação logística, a estratégia e a tecnologia. “O principal erro é tratar a reforma como um tema apenas fiscal. Ela também impacta a operação, a tecnologia e a estratégia”, ressalta.

Margens e fluxo de caixa

A nova sistemática pode gerar efeitos relevantes sobre o equilíbrio financeiro das empresas, especialmente durante a transição.

“Existe risco de aumento da carga tributária para alguns perfis de operação, especialmente serviços. Isso pode pressionar margens e impactar o preço do frete, mas ainda depende da calibragem final das alíquotas”, explica Suarez.

Além disso, mudanças na dinâmica de créditos tributários podem afetar o fluxo de caixa, principalmente para empresas com menor maturidade financeira e tecnológica. “Empresas menores e operadores com menor maturidade sistêmica tendem a sentir mais a transição”, afirma.

Digitalização e planejamento estratégico

A adaptação ao novo modelo exigirá uma base tecnológica mais robusta, com integração entre sistemas fiscais e operacionais. “O nível de preparo ainda é desigual. Empresas maiores e mais digitalizadas tendem a estar mais avançadas, enquanto parte relevante do mercado ainda está em fase inicial de adaptação”, diz Suarez.

Entre os principais ajustes necessários estão a atualização dos sistemas fiscais, a integração entre TMS, ERP e motores de cálculo, além da revisão cadastral e da adaptação dos documentos fiscais.

Empresas com menor nível de digitalização tendem a enfrentar mais dificuldades. “A reforma exige mais controle e integração. Empresas menos estruturadas podem ter dificuldade de adaptação.”

Durante o período de transição, a expectativa é de aumento de custos operacionais, principalmente relacionados à adaptação tecnológica e à revisão de processos. “Existe, sim, o risco de aumento de custos logísticos no curto prazo, mas no médio prazo a reforma tende a reduzir distorções e aumentar eficiência”, avalia.

Diante desse cenário, decisões estruturais precisarão ser tomadas ainda em 2026 para evitar impactos operacionais no futuro. Definição da arquitetura tecnológica, revisão de pricing, reavaliação da malha logística e fortalecimento da governança interna estão entre as principais diretrizes.

Para o executivo, empresas que tratarem a reforma como um projeto estratégico terão vantagem competitiva. “Tratar a reforma como um projeto estratégico, acelerar a adaptação tecnológica e revisar malha, contratos e estrutura de custos são medidas essenciais.”

Avanço estrutural

Apesar dos desafios, a avaliação é de que a reforma pode representar um avanço estrutural para o setor no longo prazo. “Ao reduzir a complexidade e aumentar a transparência, o sistema tende a melhorar a eficiência e a competitividade”, afirma Suarez.

Ele resume o momento como uma transição de alta exigência, mas com potencial de ganho estrutural. “A leitura mais equilibrada é que a reforma não será neutra para a logística: no curto prazo, ela eleva o nível de exigência operacional e tecnológica; no médio e longo prazo, tende a tornar o setor mais eficiente e menos distorcido.”

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