A capacidade do Brasil de responder a choques recentes no comércio global — como pandemia, eventos climáticos extremos e tensões geopolíticas — esbarra em limitações estruturais da infraestrutura portuária e dos acessos logísticos, elevando custos e reduzindo a competitividade das cadeias de exportação e importação.
O diagnóstico foi consensual entre executivos do setor marítimo durante o Data Smart Shipping 2026, realizado nesta semana em São Paulo. Para os participantes, a resiliência logística deixou de ser apenas uma variável operacional e passou a depender diretamente de investimento em capacidade, previsibilidade regulatória e diversificação modal.
“O custo da ineficiência impacta diretamente a competitividade do comércio exterior brasileiro”, afirmou Osmari de Castilho Ribas, diretor superintendente do Portonave.

Infraestrutura limita escala e produtividade
O principal entrave apontado é a limitação da infraestrutura portuária diante do aumento da demanda e da evolução da frota global. Segundo Cláudio Loureiro, diretor executivo do Centronave, o Brasil opera com atraso relevante em relação aos principais hubs internacionais.
“Estamos cerca de seis gerações de navios atrás e com uma defasagem de aproximadamente 15 anos em relação aos terminais mais modernos do mundo”, disse.
Hoje, os portos brasileiros operam, em grande parte, com navios de até cerca de 11,5 mil TEUs. Em mercados mais avançados, embarcações superiores a 14 mil TEUs já são padrão, exigindo maior profundidade, extensão de cais e capacidade operacional.
“Não posso aumentar o número de navios por falta de berço e não posso aumentar o tamanho porque eles não entram nos portos. Estamos travados pela infraestrutura”, afirmou Loureiro.
A restrição reduz ganhos de escala, pressiona custos logísticos e limita a inserção do país nas rotas de maior eficiência do comércio internacional.
Leia mais
Governo propõe novo ICMS sobre o diesel para conter a greve dos caminhoneiros
Por que a ANTT atualizou a tabela de frete mínimo?
Fiscalização eletrônica de seguros: entenda como a regra da ANTT afeta o transporte
Dependência do rodoviário amplia gargalos
Além da capacidade portuária, os acessos terrestres seguem como um dos principais pontos de fragilidade do sistema. A forte concentração do transporte de cargas no modal rodoviário — responsável por cerca de 65% da movimentação doméstica — amplia a exposição a congestionamentos, atrasos e custos adicionais.
“A produtividade não depende só do terminal, mas de toda a infraestrutura ao redor. Qualquer restrição nos acessos impacta a operação”, disse Ribas.
A baixa integração com ferrovias contrasta com padrões internacionais e restringe ganhos de eficiência, especialmente em operações de maior escala.
Falta de dragagem compromete previsibilidade
Na cabotagem, a ausência de planejamento em infraestrutura básica, como dragagem, compromete a regularidade das operações, sobretudo em regiões estratégicas como a Amazônia.
“Em 2023, ficamos 45 dias sem acessar Manaus por restrições de navegabilidade. Isso interrompe completamente a cadeia logística”, afirmou Luiz Resano, diretor executivo da Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem.
Segundo ele, eventos climáticos extremos já fazem parte da realidade operacional, mas a resposta ainda é reativa. “Não dá para esperar o problema acontecer. É preciso antecipar investimentos”, disse.
A imprevisibilidade afeta diretamente prazos, custos e a confiabilidade do serviço, fatores críticos para cadeias produtivas cada vez mais dependentes de regularidade logística.
Ambiente regulatório encarece investimentos
A necessidade de ampliação da capacidade esbarra também em incertezas regulatórias e na lentidão de projetos estruturantes. O setor aponta que a insegurança jurídica eleva o custo do capital e reduz a atratividade do país frente a outros mercados.
“O Brasil disputa investimento com o resto do mundo. Sem segurança regulatória, o capital vem mais caro ou não vem”, afirmou Loureiro.
Projetos relevantes seguem em discussão há anos, enquanto a demanda cresce de forma contínua. Para os executivos, a ausência de previsibilidade institucional compromete decisões de longo prazo e posterga investimentos essenciais.
Resiliência exige antecipação
Para Andrew Lorimer, CEO da Datamar, a própria busca por eficiência máxima nas cadeias globais contribuiu para ampliar a exposição a riscos.
“A dependência do just in time fez com que qualquer ruptura tivesse impacto sistêmico. Construir redundância custa, mas não ter essa capacidade custa mais em momentos de crise”, afirmou.
Na avaliação dos executivos, o principal aprendizado recente é a necessidade de identificar e corrigir vulnerabilidades estruturais antes que elas se transformem em gargalos operacionais.
Sem avanço consistente em infraestrutura, integração modal e ambiente regulatório, o país tende a continuar operando próximo ao limite — com impacto direto sobre custos logísticos, previsibilidade das operações e competitividade do comércio exterior brasileiro.
Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedIn, Instagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno



