O Banco Central do Brasil iniciou um novo ciclo de flexibilização monetária ao reduzir a taxa básica de juros, a Selic, de 15% para 14,75% ao ano — o primeiro corte desde maio de 2024. A decisão do Comitê de Política Monetária veio em linha com as expectativas do mercado, mas cercada por incertezas externas, especialmente relacionadas ao conflito no Oriente Médio.
Ouvido na manhã desta quinta-feira (19) pela reportagem da Agência Transporte Moderno, o sócio e consultor da Boschi Inteligência de Mercado [BIM]³, Gregori Boschi, avalia que o movimento já era esperado e representa um sinal positivo para a economia. “A redução da taxa Selic já estava no radar desde o ano passado. O Banco Central está dando continuidade a esse processo, o que é importante para estimular a atividade”, afirma.
Segundo Boschi, no entanto, o cenário internacional pode interferir no ritmo dos cortes. A escalada do conflito envolvendo Estados Unidos e Irã tem pressionado o preço do petróleo, variável central para o transporte rodoviário. “O aumento do barril impacta diretamente os combustíveis. Mesmo com medidas do governo para conter os preços, como desonerações, não é possível segurar totalmente esse repasse, já que se trata de uma commodity dolarizada”, explica.
Esse efeito, ainda que parcial, já começa a gerar impactos em cadeia. O encarecimento do diesel eleva o custo do frete, que por sua vez pressiona os preços de alimentos, bens e mercadorias, alimentando a inflação. “São pressões negativas que acabam chegando ao consumidor final”, diz o consultor.
Esse ambiente inflacionário coloca em xeque a continuidade do ciclo de queda da Selic. De acordo com Boschi, o Comitê de Política Monetária deverá calibrar os próximos passos com cautela. “Se a inflação ganhar força, a discussão passa a ser se mantém a taxa no patamar atual ou até interrompe o ciclo de cortes”, afirma.
Para o setor de transporte, o cenário é ambíguo. Por um lado, juros mais baixos tendem a estimular o consumo e os investimentos, o que favorece a demanda por caminhões, serviços logísticos e movimentação de cargas. Por outro, a persistência de custos elevados — sobretudo com combustíveis — limita a recuperação das margens das transportadoras.
“Se a Selic continuar caindo, há um incentivo mais claro ao consumo de bens e serviços, o que beneficia o transporte. Mas, com juros ainda elevados, esse estímulo segue restrito”, avalia Boschi.
Cenário externo será determinante
Outro fator de atenção é o ambiente político. Em um contexto de ano eleitoral, a manutenção do plano de redução dos juros pode ganhar peso como sinal de compromisso com a atividade econômica. Ainda assim, o consultor pondera que o cenário externo será determinante. “Quanto mais o conflito se prolongar, maior tende a ser o impacto inflacionário e, consequentemente, maior a pressão para interromper ou reduzir o ritmo de queda da Selic.”
Na prática, o setor de transporte segue exposto a uma equação delicada: enquanto aguarda os efeitos positivos de uma política monetária mais branda, precisa lidar com custos operacionais ainda pressionados por fatores globais — com destaque para o petróleo — que continuam fora do controle doméstico.
Diante desse cenário de incertezas, o Comitê de Política Monetária indicou que os próximos passos dependerão da evolução do ambiente externo e das expectativas de inflação. A próxima reunião do colegiado está marcada para os dias 28 e 29 de abril de 2026, quando o mercado avaliará se haverá continuidade no ciclo de cortes da taxa básica de juros.
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