Guerra no Oriente Médio já altera rotas de diesel para o Brasil

Monitoramento do governo mostra desvio de navios e pressiona logística e custos do transporte

Valeria Bursztein

A escalada da guerra no Oriente Médio já começa a produzir efeitos diretos sobre o abastecimento energético e a logística brasileira, com possíveis impactos sobre o custo do transporte e do escoamento de cargas. Segundo informações reveladas pela jornalista Míriam Leitão, em coluna publicada no jornal O Globo, navios que transportavam diesel para o Brasil mudaram de rota em busca de mercados dispostos a pagar mais pelo combustível.

O movimento foi identificado por meio de um sistema de monitoramento acompanhado por uma “sala de situação” instalada no Ministério de Minas e Energia, responsável por acompanhar em tempo real a dinâmica do mercado internacional de combustíveis.

De acordo com a apuração da jornalista, parte dos navios contratados anteriormente para entregar diesel no Brasil decidiu alterar o destino das cargas após a forte valorização do petróleo no mercado internacional. Em determinados casos, embarcações que deveriam descarregar no país seguiram viagem para outros portos onde o preço do combustível era mais elevado.

Dependência de importações amplia vulnerabilidade

O Brasil consome cerca de 65 bilhões de litros de diesel por ano, dos quais mais de 70% são utilizados pelo transporte rodoviário de cargas e passageiros, segundo dados do Balanço Energético Nacional da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Apesar da produção doméstica, o país ainda depende da importação de aproximadamente 30% do combustível, o que o torna particularmente sensível a choques no mercado internacional.

Parte do petróleo importado pelo Brasil vem da Arábia Saudita e tradicionalmente passa pelo Estreito de Ormuz, região estratégica que se tornou ainda mais sensível com o agravamento do conflito.

Para reduzir riscos logísticos, parte dessas cargas passou a seguir rotas alternativas. Alguns embarques têm sido redirecionados pelo Mar Vermelho ou pelo Mediterrâneo. Nesse segundo caso, o transporte se torna mais complexo, exigindo inclusive trechos complementares realizados por caminhão antes de a carga ser embarcada novamente em navios menores.

Brasil tem estoques limitados de diesel

A vulnerabilidade logística também está associada ao nível de estoques. Diferentemente de países da OCDE, o Brasil não possui reservas estratégicas governamentais de derivados.

Segundo informações do Ministério de Minas e Energia e da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), os estoques comerciais de diesel no país costumam variar entre 25 e 35 dias de consumo, distribuídos entre refinarias, terminais portuários e bases de distribuição.

Esse cenário torna o abastecimento nacional mais dependente da regularidade das importações e da logística marítima internacional.

Diesel representa até 45% do custo do frete

O diesel é o principal insumo energético da logística brasileira. No transporte rodoviário de cargas, o diesel é o principal insumo operacional e pode representar entre 35% e 45% do custo total das transportadoras, dependendo do perfil da operação e da distância percorrida, segundo estudos da Confederação Nacional do Transporte (CNT), da NTC&Logística e metodologias de cálculo de custos desenvolvidas pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE).

Por isso, oscilações rápidas no preço do combustível costumam se refletir diretamente nas tarifas de frete e na rentabilidade das empresas do setor.

A volatilidade ocorre em um momento sensível para a logística brasileira, marcado pelo escoamento da safra agrícola. O transporte de grãos, fertilizantes e insumos depende majoritariamente do modal rodoviário, o que torna o preço do diesel um fator determinante para a formação do frete no agronegócio.

Mercado internacional redireciona cargas

No mercado global de derivados, a mudança de rota de navios é relativamente comum em momentos de forte volatilidade de preços. Traders e armadores podem redirecionar carregamentos para portos com maior rentabilidade, especialmente quando os contratos permitem flexibilidade de destino.

Esse comportamento explica por que parte dos carregamentos inicialmente destinados ao Brasil foi redirecionada para outros mercados diante da alta recente do petróleo, que chegou a superar US$ 120 por barril durante o pico das tensões geopolíticas.

Mesmo com o redirecionamento de cargas e a volatilidade do mercado internacional, fontes do governo afirmam que não há risco imediato de desabastecimento no país. Ainda assim, a preocupação permanece elevada.

Segundo avaliação de autoridades e agentes do setor energético ouvidos na apuração, mesmo que o conflito seja interrompido no curto prazo, os efeitos sobre o mercado de combustíveis e sobre as cadeias logísticas globais podem persistir por várias semanas. Para um país altamente dependente do transporte rodoviário de cargas, o comportamento do mercado de diesel seguirá sendo um fator crítico para a logística e para os custos operacionais do setor nas próximas semanas.

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