A expansão da logística urbana, a queda gradual no custo das baterias e o avanço da infraestrutura de recarga estão criando um ambiente mais favorável para a eletrificação do transporte de cargas no Brasil.
A avaliação é de Mauricio Santana, diretor nacional de vendas e pós-Vendas da Foton no Brasil, que vê uma “janela relevante de oportunidade” para a adoção de veículos comerciais elétricos no país.
Segundo o executivo, o mercado brasileiro vive um momento distinto do observado há poucos anos, quando a falta de infraestrutura e a desconfiança dos operadores limitavam a adoção da tecnologia.
“Hoje o cenário é completamente diferente de dois anos atrás. A infraestrutura de recarga cresceu muito e o próprio mercado passou a considerar o veículo elétrico nas contas de operação”, afirma Santana.
A montadora aposta nesse movimento com a introdução de um portfólio de veículos comerciais elétricos que vai do mini truck a caminhões de até 12 toneladas.
Recarga ainda gera dúvidas
Um dos principais pontos de resistência entre transportadores continua sendo o tempo de recarga dos veículos. Para Santana, porém, esse aspecto costuma ser superestimado.
“Muitos perguntam quanto tempo vai demorar para carregar e já pensam em carregadores ultrarrápidos. Mas esquecem que grande parte das frotas pode recarregar à noite, quando a operação está parada”, afirma o executivo.
Segundo ele, em muitos casos o uso de carregadores de corrente alternada, mais simples e baratos, já atende plenamente às necessidades operacionais.
“Por que investir em um supercarregador se um carregador mais simples, de menor custo de instalação, resolve a operação? Isso melhora o TCO e ajuda a viabilizar o negócio”, diz.
O executivo cita casos em que a própria dinâmica operacional permite a recarga durante pausas logísticas.
“Tivemos um cliente que dizia que precisaria parar o caminhão por duas horas para recarregar. Quando analisamos a operação, vimos que ele faz transbordos de 45 minutos. Esse tempo já seria suficiente para recarga parcial”, explica.
Eletrificação parcial da frota
Outro equívoco comum, segundo Santana, é a ideia de que a eletrificação exige a substituição integral da frota.
“Não é necessário trocar 100% da frota para elétrico. O ideal é começar pelas rotas que fazem sentido. Distâncias maiores podem continuar com diesel”, afirma.
Por isso, a Foton pretende preparar sua rede de concessionárias para atuar também como consultores operacionais. “O vendedor precisa entender a rota, a carga, a distância percorrida e os turnos de operação para avaliar se o elétrico é viável”, afirma.
Mercado começa a amadurecer
A percepção de valor dos veículos chineses também evoluiu nos últimos anos, segundo o executivo. “BYD e GWM ajudaram a mudar essa percepção. Hoje o consumidor já reconhece a qualidade embarcada dos veículos chineses”, afirma Santana.
Dados recentes indicam que o mercado brasileiro de veículos elétricos ultrapassou 180 mil unidades, com crescimento anual de dois dígitos. “Percebemos que a linha de entrada, que é quem faz conta, já considera o elétrico na hora de comprar”, diz.
Segundo ele, pesquisas mostram que veículos elétricos têm apresentado forte liquidez no mercado digital de revenda, inclusive com valores acima da tabela de referência.
Economia é principal fator de decisão
Apesar do avanço da agenda ambiental, o custo operacional continua sendo o principal fator de decisão para transportadores.
“O argumento ambiental é importante, mas cerca de 90% da decisão do cliente está na conta. E hoje essa conta já fecha”, afirma Mauricio Santana, Diretor Nacional de Vendas e Pós-Vendas da Foton no Brasil.
Segundo ele, em muitas operações o investimento em um veículo elétrico pode se pagar em cerca de dois anos e meio, dependendo da aplicação. Além da economia de combustível, o executivo destaca outros fatores operacionais, como menor nível de ruído e maior conforto para o motorista.
“Em operações urbanas, o veículo elétrico permite entregas noturnas sem ruído e oferece mais conforto para o motorista. Isso também pesa na decisão”, afirma.
Estratégia da Foton no Brasil
A Foton pretende aproveitar o momento de transição tecnológica para ampliar sua presença no mercado brasileiro. A empresa afirma ter sido a montadora de caminhões que mais cresceu no país no último ano, com avanço de 150% nas vendas.
Para o primeiro ano de operação do novo portfólio elétrico, a empresa projeta comercializar cerca de 600 unidades. “Os concorrentes têm um ou dois modelos elétricos. Nós vamos entrar com sete e com uma rede nacional de concessionárias. Isso cria uma oportunidade importante para a marca”, afirma Santana.
A empresa também investe na qualificação da rede de atendimento, com treinamento de técnicos em parceria com o SENAI, e prevê alcançar cerca de 80 concessionárias no Brasil até junho.
Perspectivas
Apesar do otimismo com o avanço da eletrificação, o executivo avalia que o cenário macroeconômico ainda exige cautela.
Segundo ele, a instabilidade internacional pode limitar a queda das taxas de juros no curto prazo. “A tendência é que os juros permaneçam no nível atual ou até subam um pouco”, afirma. Mesmo assim, Santana acredita que a eletrificação continuará avançando à medida que os operadores percebam os ganhos operacionais.
“O processo é de conscientização. Quando o usuário entende a operação e vê que a conta fecha, ele passa a considerar o elétrico de forma natural”, conclui.



