A digitalização da logística no Brasil avança a um ritmo médio de 23% ao ano, acima da média global, impulsionada pela pressão crescente por eficiência operacional e pelo avanço do comércio eletrônico. Segundo dados da empresa de tecnologia Cobli, o mercado deve passar de US$ 104,79 bilhões, registrados em 2024, para US$ 129,34 bilhões até 2029, consolidando a tecnologia como elemento central nas estratégias de operadores logísticos e transportadoras.
O ritmo acelerado de investimentos, no entanto, não significa maturidade tecnológica plena. À medida que a digitalização avança, tornam-se mais evidentes as limitações de modelos tradicionais de adoção tecnológica baseados em sistemas prontos, projetos longos e forte dependência de integrações complexas. Em muitas operações, a presença de tecnologia não tem se traduzido nos ganhos esperados de eficiência, agilidade ou redução de custos.
“O setor passou anos investindo em soluções que prometiam padronizar a operação, mas a logística brasileira é tudo menos padronizada. Quando a tecnologia não reflete o dia a dia da operação, ela vira mais um gargalo em vez de um ganho de eficiência”, afirma Paulo Cacciari, head da Deyel no Brasil.
A empresa atua em projetos de digitalização e desenvolvimento de software para companhias como Sky, Consigaz, Tramontina e Afferolab. Segundo Cacciari, cresce a demanda por modelos tecnológicos mais adaptáveis, especialmente em projetos que exigem evolução contínua e capacidade de resposta rápida às mudanças operacionais.
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Exigências tecnológicas
A expansão do comércio eletrônico elevou o nível de exigência sobre prazos, rastreabilidade e visibilidade das cadeias logísticas. Ao mesmo tempo, as operações tornaram-se mais fragmentadas, com volumes variáveis e margens pressionadas, cenário que exige sistemas capazes de se adaptar rapidamente às mudanças.
Para Cacciari, esse ambiente tem levado empresas de logística e transporte a reavaliar a forma como estruturam seus projetos de tecnologia. Em vez de grandes implantações fechadas, cresce o interesse por abordagens mais flexíveis, capazes de acompanhar mudanças frequentes na operação.

“A pressão por eficiência se intensificou com a expansão do e-commerce. Operações mais fragmentadas e margens mais apertadas exigem sistemas que evoluam junto com a operação, algo difícil de alcançar com estruturas rígidas e pouco customizáveis”, afirma o executivo.
Desafio da integração de dados
Além da complexidade operacional, outro obstáculo recorrente está na integração das tecnologias já existentes. Muitas operações utilizam simultaneamente sistemas como TMS, WMS, telemetria e plataformas de visibilidade, mas nem sempre esses ambientes conversam de forma eficiente.
Segundo Cacciari, o principal gargalo da digitalização logística atualmente não está na adoção de novas tecnologias, mas na governança e integração dos dados gerados pelos sistemas já instalados.
“Hoje as empresas acumulam sistemas, mas cada um acaba gerando uma versão diferente da operação. Isso compromete a confiabilidade dos indicadores e dificulta a tomada de decisão”, afirma o executivo.
Sem uma fonte única de dados confiável, gestores acabam recorrendo a comunicação direta por telefone ou mensagens para validar informações operacionais, o que reduz o potencial de ganho de eficiência proporcionado pela digitalização.
Letramento digital desigual
Outro fator que influencia o sucesso dos projetos de transformação digital no setor é o nível de letramento tecnológico das equipes operacionais. Segundo Cacciari, a maturidade digital ainda é bastante desigual entre transportadoras e operadores logísticos.
Há empresas mais avançadas, mas grande parte do setor ainda convive com uso parcial dos sistemas e baixa integração entre tecnologia e rotina operacional.
“Muitos projetos fracassam porque são pensados para a gestão, mas não para quem executa a operação no dia a dia. Quando a tecnologia não se adapta à rotina do motorista, do conferente ou da expedição, ela acaba sendo contornada”, afirma.
Construção de plataformas
Diante desse cenário, cresce no setor uma mudança de abordagem tecnológica. Em vez de simplesmente adquirir novos sistemas, empresas passam a adotar plataformas que funcionam como base para o desenvolvimento e evolução contínua de softwares próprios.
O objetivo é reduzir a dependência de soluções genéricas e ampliar o controle sobre processos, dados e fluxos operacionais. “O problema não é investir pouco em tecnologia, mas investir mal. Quando cada ajuste exige um novo projeto, a eficiência se perde no custo e no tempo de implementação”, afirma Cacciari.
Para o executivo, o avanço da digitalização logística no Brasil deve continuar acima da média global nos próximos anos. O desafio, segundo ele, será transformar o crescimento dos investimentos em ganhos consistentes de produtividade e eficiência.
“A digitalização só faz sentido quando acompanha a dinâmica real da operação. Caso contrário, ela apenas troca um problema operacional por um problema tecnológico”, conclui o head da Deyel no Brasil.
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