A escalada das tensões geopolíticas no Oriente Médio passou a influenciar diretamente o mercado global de transporte marítimo de contêineres e as negociações de contratos de frete de longo prazo. O tema ganhou novos contornos com dados recentes do Xeneta Shipping Index (XSI®).
Segundo a plataforma de inteligência de mercado Xeneta, a indústria experimenta um cenário que parecia mais estável. Após um início de ano turbulento marcado por tensões comerciais e tarifas, as taxas de frete vinham se acomodando e o foco do setor se deslocava para a temporada anual de licitações de contratos de longo prazo — especialmente nas rotas transpacíficas.
Entretanto, esse ambiente mudou rapidamente após a operação militar conjunta de Estados Unidos e Israel contra o Irã. A nova escalada geopolítica ampliou os riscos logísticos e levou ao congelamento de negociações em algumas rotas estratégicas.
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Entre os impactos imediatos, negociações de contratos de longo prazo na rota Transpacífico foram interrompidas, enquanto acordos recém-fechados entre Ásia e Europa começaram a ser revistos por meio da introdução de recargos ou ajustes tarifários.
De acordo com a Xeneta, o cenário atual vai além da volatilidade tradicional do setor. “A indústria enfrenta uma sequência de choques que chegam com pouco ou nenhum aviso e reconfiguram o mercado antes que os contratos tenham tempo de se ajustar”, avalia a consultoria.
Operações afetadas e custos adicionais
A deterioração do ambiente geopolítico também já provoca efeitos operacionais nas rotas marítimas. A MSC anunciou a adoção do End of Voyage Declaration, mecanismo que permite descarregar cargas destinadas a portos afetados no Oriente Médio no primeiro porto seguro disponível. A companhia também estabeleceu um recargo obrigatório de US$ 800 para cargas impactadas, além de custos adicionais de movimentação e armazenamento.
Segundo a Xeneta, isso significa aumento imediato de custos e maior complexidade logística para os embarcadores. A situação se agravou com o fechamento prático do Estreito de Ormuz para o transporte de contêineres, uma das passagens marítimas mais estratégicas do comércio global. Dados da consultoria indicavam que, em 9 de março, 204 navios porta-contêineres estavam afetados no Golfo Pérsico, entre embarcações em trânsito, aguardando ou operando em portos da região.
O impacto é particularmente relevante para fluxos logísticos que utilizam o Oriente Médio como hub de transbordo para cargas destinadas à Costa Leste dos Estados Unidos, incluindo produtos farmacêuticos e mercadorias do varejo.
Armadores aplicam recargos
Diante do aumento dos riscos operacionais, as principais companhias de navegação passaram a introduzir novas tarifas e sobretaxas.
A MSC anunciou recargos emergenciais de guerra de US$ 500 por TEU para carga seca e US$ 1.000 para contêineres refrigerados em determinados serviços entre o subcontinente indiano e destinos na África e no Oceano Índico.
A Maersk introduziu um Emergency Contingency Surcharge que pode chegar a US$ 3.000 para contêineres de 40 e 45 pés, enquanto a Hapag-Lloyd anunciou um General Rate Increase (GRI) de US$ 1.000 por contêiner para cargas originadas no subcontinente indiano e no Oriente Médio com destino aos Estados Unidos.
Outro fator que pressiona o setor é a alta do bunker. Segundo a Xeneta, os preços do combustível marítimo dispararam após a nova escalada do conflito, refletindo o aumento do petróleo nos mercados internacionais.
Escassez e excesso de capacidade
Apesar das disrupções geopolíticas, os dados do Xeneta Shipping Index (XSI®) indicam que o mercado global de fretes marítimos segue marcado por uma dinâmica complexa.
O índice global de contratos de longo prazo atingiu 154,3 pontos em abril, alta modesta de 1,7% em relação a março. Entretanto, os sub-índices revelam movimentos bastante distintos entre rotas.
O XSI® para importações europeias chegou a 171,8 pontos, alta mensal de 9,2%, o maior avanço desde junho de 2022. A elevação está diretamente associada às disrupções provocadas pelos ataques no Mar Vermelho e aos desvios de rotas ao redor do Cabo da Boa Esperança, que aumentam os tempos de trânsito e exigem mais navios para manter as escalas.
Já o índice para importações dos Estados Unidos caiu 9,4% em abril, para 150,6 pontos, refletindo a pressão de um mercado spot mais fraco nas rotas transpacíficas.
Mesmo com o leve avanço mensal, o índice global permanece 50% abaixo do registrado em abril de 2023, evidenciando o ajuste de preços após o ciclo de fretes elevados observado no período pós-pandemia.
Incerteza nas negociações contratuais
A pressão geopolítica ocorre ao mesmo tempo em que a indústria enfrenta um aumento estrutural da capacidade de transporte.
Desde o segundo trimestre de 2023, o setor vem registrando entregas recordes de novos navios porta-contêineres, o que aumenta o risco de excesso de oferta no médio prazo.
Até agora, porém, as disrupções no Mar Vermelho têm ajudado a absorver parte dessa capacidade adicional, já que os desvios de rota exigem mais navios para manter os serviços regulares.
Caso a navegação volte a ocorrer normalmente pelo Mar Vermelho nos próximos meses, analistas avaliam que o mercado poderá enfrentar forte pressão de excesso de capacidade, com possível queda significativa das tarifas spot.
Com muitos contratos de longo prazo nos Estados Unidos vencendo entre abril e maio, os próximos meses deverão indicar como o setor está se ajustando a um ambiente marcado por tensões geopolíticas, volatilidade nos custos e incertezas sobre a demanda global.
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