A indústria de pneus está em discussão com o governo federal para criar uma linha de financiamento voltada à troca de pneus, inspirada no programa Move Brasil, e espera que a medida seja lançada ainda em 2026. Essa iniciativa é parte de um pacote de ações para conter o avanço dos importados no mercado nacional.
Segundo o presidente-executivo da Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP), Rodrigo Navarro, a proposta já foi apresentada há algum tempo ao governo e vem sendo debatida em um grupo de trabalho criado para tratar do tema.
A ideia é criar um mecanismo de crédito que facilite a compra de pneus novos, principalmente para caminhoneiros autônomos, que hoje acabam recorrendo a produtos importados mais baratos. O financiamento permitiria parcelar a troca dos pneus — um custo elevado para quem opera com margens apertadas — e poderia estimular a demanda por produtos fabricados no país.
A iniciativa faz parte de um conjunto mais amplo de medidas defendidas pelo setor para reequilibrar a concorrência no mercado brasileiro. Entre elas estão maior controle sobre a entrada de importados, aceleração de processos antidumping, estímulos ao consumo de produtos nacionais e incentivos à produção de matérias-primas no país.
Importados já são 75%
O debate ocorre em um momento de forte crescimento da participação estrangeira no mercado de pneus, sobretudo de asiáticos. Em 2020, os produtos importados representavam cerca de 38% das vendas no Brasil, enquanto a indústria local respondia por 62%. Ao longo dos últimos anos, porém, essa relação se inverteu e os importados passaram a dominar o mercado.
Atualmente, cerca de 72% dos pneus comercializados no país são importados. No segmento de pneus para veículos de carga, a participação chega a aproximadamente 75%, segundo dados citados pelo executivo.
Para Navarro, parte desse avanço está associada a práticas de concorrência consideradas desleais. Ele afirma que muitos produtos chegam ao país com preços artificialmente baixos, em casos que podem caracterizar dumping. Segundo o executivo, existem atualmente mais de dez processos de investigação desse tipo envolvendo diferentes origens, principalmente países asiáticos.
“O que acontece muitas vezes é que, quando se abre um processo contra uma origem, a exportação passa a vir de outro país. A China diminui, sobe Vietnã; depois aparece Malásia ou outro país da região”, afirmou.
Além da questão de preços, a indústria aponta diferenças no cumprimento de obrigações ambientais. Pela legislação brasileira, fabricantes e importadores precisam garantir a destinação adequada de pneus inservíveis por meio de sistemas de logística reversa.
Ele cita os dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) que mostram que a indústria instalada no país cumpre integralmente essas metas, enquanto parte dos importadores não atinge o mesmo nível de cumprimento.
Redução de produção e desligamentos
O avanço das importações já começa a gerar impactos na cadeia produtiva, segundo o executivo. Ele afirma que o setor tem registrado redução de produção em algumas unidades, férias coletivas e notícias de desligamentos de trabalhadores neste início de ano.
Outro reflexo aparece na cadeia da borracha natural. A indústria de pneus absorve cerca de 80% da produção nacional da matéria-prima. Com a queda da demanda, produtores têm avaliado substituir seringueiras por outras culturas agrícolas.
Navarro ressalta que essa mudança pode trazer consequências estruturais, já que a seringueira leva cerca de dez anos para começar a produzir. “Se essa base produtiva se perde, não é algo que se recupera rapidamente”, afirmou.
Diante desse cenário, o setor organizou um manifesto que reúne apoio de cerca de 15 entidades da cadeia produtiva, incluindo representantes da indústria química, produtores de borracha e federações industriais.
Entre as propostas apresentadas, há também maior fiscalização sobre preços de importação, medidas de proteção comercial mais rápidas e estímulos ao uso de produtos nacionais em compras públicas.
Segundo Navarro, o governo já começou a discutir as sugestões em reuniões periódicas com representantes do setor. “O governo criou um grupo de trabalho e estamos detalhando as propostas. Agora o momento é de avaliar o que pode ser implementado”, afirmou.
Para o executivo, a adoção das medidas é essencial para preservar a capacidade produtiva instalada no país. Caso contrário, o setor pode enfrentar novos fechamentos de fábricas e perda de investimentos nos próximos anos.
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