A escalada do conflito no Oriente Médio acende um alerta para o transporte rodoviário de cargas no Brasil, especialmente durante o período crítico de escoamento da safra 2026. Segundo Lauro Valdivia, assessor técnico da Associação Nacional do Transporte de Carga & Logística (NTC&Logística), a combinação de alta demanda por caminhões, diesel mais caro e volatilidade cambial tende a pressionar os custos de operação e afetar toda a cadeia logística.
O escoamento da safra agrícola brasileira — estimado em 342,7 milhões de toneladas de grãos — já coloca o transporte rodoviário sob pressão. Dados do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) do IBGE indicam que, apesar de um leve recuo em relação ao recorde de 2025, quando a produção atingiu 346,1 milhões de toneladas, o volume continua elevado, mantendo a necessidade de planejamento logístico cuidadoso.
“Movimentos geopolíticos em regiões estratégicas para produção de petróleo aumentam a volatilidade do barril. Como o diesel representa cerca de 35% do custo operacional do transporte rodoviário, qualquer alta impacta diretamente as transportadoras e, consequentemente, os custos praticados em todo o país”, afirma Valdivia à Agência Transporte Moderno.

O setor já opera com margens estreitas, e nem sempre é possível repassar imediatamente o aumento do diesel aos embarcadores. Contratos de médio e longo prazo dificultam ajustes rápidos, e parte do custo acaba sendo absorvida pelas transportadoras. Se a alta persistir, empresas menores ou que atuam em operações altamente competitivas podem ter sua rentabilidade comprometida, alerta o assessor técnico.
Pico da safra
Durante o pico da safra, a pressão se intensifica. As rotas que ligam o Centro-Oeste aos portos exportadores enfrentam grande demanda, e a combinação de diesel mais caro e câmbio volátil pode elevar significativamente os custos de transporte. A disponibilidade de caminhões e as condições das rodovias influenciam diretamente o quanto esses custos podem subir, tornando o planejamento logístico ainda mais crítico neste período.
Para enfrentar o cenário, o assessor técnico da NTC&Logística recomenda monitoramento constante dos preços internacionais do petróleo, avaliação estratégica da frota e das rotas críticas, além de diálogo contínuo com embarcadores e órgãos reguladores.
“O objetivo é garantir que a safra seja escoada sem grandes rupturas, mesmo diante de aumento dos custos e da instabilidade global”, conclui Valdivia.
Logística e insumos em alerta
Além do impacto direto no transporte, especialistas apontam riscos significativos para a logística internacional de fertilizantes e exportações de grãos, que podem pressionar custos e preços da safra. O Estreito de Ormuz, rota vital para petróleo e insumos agrícolas, é um ponto sensível do conflito. Qualquer entrave nessa região pode gerar efeito dominó nos custos globais.
“O conflito terá um impacto imediato e severo no mercado de fertilizantes, com ênfase nos nitrogenados. O Irã responde por 10% das exportações globais de ureia, enquanto o Oriente Médio como um todo concentra 25% do fornecimento mundial”, explica Maria Luisa Franzotti, analista econômica e de geopolítica da consultoria Céleres.
Para o Brasil, o impacto pode ser expressivo: em 2025, Irã e países do Oriente Médio concentraram cerca de 35% das importações brasileiras de ureia, 17% dos fosfatados e 10% do Cloreto de Potássio (KCl). “Qualquer interrupção logística cria gargalos que afetam a disponibilidade e o custo final dos insumos, e, por consequência, o planejamento da safra”, acrescenta Franzotti.
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