A venda de novas cotas de consórcio para caminhões deve permanecer estável em 2026, após a retração registrada no ano passado. A projeção é do economista da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC), Luiz Antonio Barbagallo, que avalia que, diante do cenário macroeconômico e da situação do agronegócio, manter o volume já representará um resultado positivo para o setor.
“Prevemos uma estabilidade, que já é uma grande coisa, porque o ano passado caiu”, afirmou o economista, em entrevista à Agência Transporte Moderno.
Em 2025, foram comercializadas cerca de 170 mil novas cotas de consórcio de veículos pesados. Para 2026, a expectativa é de um desempenho próximo a esse patamar. Apenas em janeiro deste ano, as vendas ficaram em quase 14 mil cotas, uma queda de cerca de 8% frente ao mesmo mês do ano anterior — movimento que, segundo Barbagallo, ainda não serve de termômetro para o ano, por conta de sazonalidade e menor número de dias úteis em janeiro e fevereiro.
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Sem efeito dos juros
Um dos principais mitos do mercado, segundo o economista, é a ideia de que a alta da taxa básica de juros impulsiona automaticamente o consórcio, por ser uma alternativa mais barata ao financiamento.
De acordo com ele, estudos estatísticos da própria entidade mostram que a correlação entre a taxa Selic e a venda de cotas é baixa. “O consumidor compara a taxa de administração com a taxa de juros do financiamento, mas historicamente o consórcio sempre foi mais barato. Então ele não responde diretamente às oscilações da Selic”, explicou.
Hoje, a taxa de administração de um consórcio de caminhão gira em torno de 14,5% a 15% sobre o valor total do crédito ao longo de todo o plano. Já o financiamento pode superar 20% ao ano, considerando juros e demais encargos, especialmente em um cenário de taxa básica ainda em dois dígitos.
Mesmo assim, para Barbagallo, juros elevados acabam prejudicando toda a cadeia econômica — inclusive o próprio consórcio — ao reduzir a capacidade de investimento de empresários e transportadores. “A taxa de juros muito alta deprime a economia. O empresário pensa duas vezes antes de renovar a frota, independentemente da modalidade.”
Agro em momento crítico
O cenário do agronegócio também pesa nas projeções para 2026. Segundo dados apresentados pela ABAC, o endividamento do setor ultrapassa R$ 1,2 trilhão, com inadimplência de 8,1% no segundo trimestre de 2025 — o maior nível desde 2022.
Problemas climáticos em regiões como o Rio Grande do Sul, queda nos preços de commodities e aumento dos custos de insumos, como fertilizantes, comprimiram margens e reduziram a capacidade de investimento dos produtores. Como o agro movimenta a demanda por caminhões — antes e depois da porteira — o impacto reverbera no mercado de consórcios.
Mesmo assim, a entidade avalia que a estabilidade é factível, apoiada em expectativas moderadas para o setor de veículos comerciais. Projeções de mercado indicam leve crescimento nas vendas e na produção de caminhões em 2026, além do programa de estímulo à renovação de frota, o Move Brasil, que até o último sábado, 28 de fevereiro, liberou R$ 2,5 bilhões em crédito, de um total disponível de R$ 10 bilhões.
Autônomos ganham espaço
O consórcio tem se consolidado como instrumento de planejamento financeiro, especialmente para caminhoneiros autônomos. Segundo a ABAC, o número de participantes ativos no segmento de veículos pesados praticamente dobrou em cinco anos, passando de cerca de 450 mil para aproximadamente 900 mil.
Hoje, o público pessoa física já representa parcela próxima à das grandes transportadoras na carteira de consórcios de caminhões.
“O consórcio é um instrumento de planejamento e de educação financeira. Ele permite programar a renovação da frota com custo fixo financeiro menor, sem pressionar tanto o fluxo de caixa”, afirmou o economista.
Outro atrativo é a flexibilidade: o consorciado adquire uma carta de crédito e pode optar, no momento da contemplação, por um veículo novo ou usado, dentro do mesmo segmento, além de utilizar parte do valor para despesas como documentação e seguro. Segundo a entidade, a maioria dos contemplados acaba adquirindo veículos usados, o que amplia o poder de compra e reduz a necessidade de desembolso adicional.
No recorte de veículos pesados, os caminhões representam 41% das cotas comercializadas dentro do segmento de pesados, enquanto máquinas agrícolas concentram 51% e implementos rodoviários e outros itens, 8%.
Em termos de participação nas formas de pagamento de caminhões novos, o consórcio responde atualmente por cerca de 6,5% a 8% das aquisições, segundo dados da entidade com base em informações da B3. Em seminovos, a participação é maior, girando em torno de 13%.
Para 2026, a mensagem da ABAC é de cautela, mas sem pessimismo. “Diante de um cenário de incertezas políticas, fiscais e macroeconômicas, manter o volume já será um bom resultado. O consórcio continua sendo uma alternativa de planejamento em um ambiente de juros estruturalmente elevados”, concluiu Barbagallo.
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