Investimento suíço posiciona o Pecém como hub logístico do Atlântico

Terminal da Fracht Log amplia capacidade de armazenagem frigorificada do Nordeste

Valeria Bursztein

O Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp), no Ceará, passou a contar com uma nova infraestrutura logística voltada à armazenagem e distribuição de cargas refrigeradas, congeladas, industriais e conteinerizadas.

Com aporte de aproximadamente R$ 120 milhões, a multinacional suíça Fracht AG implantou no complexo o primeiro terminal dedicado à armazenagem de cargas frias para exportação e importação da região — e também o maior projeto greenfield já realizado pelo grupo no mundo.

Segundo Thiago Abreu, diretor-geral da Fracht Log, unidade brasileira responsável pela operação, a iniciativa representa uma inflexão na estratégia global da companhia, tradicionalmente baseada em aquisições internacionais.

“Pela primeira vez o grupo aposta em um projeto desenvolvido do zero. A intenção desde o início foi ser um parceiro operacional do Porto do Pecém e ampliar a capacidade logística do complexo”, afirma Abreu.

O terminal entrou em operação há cinco meses e já supera 50 clientes atendidos, passando a ser uma alternativa logística para indústrias instaladas no Ceará e na região do Matopiba — fronteira agrícola formada por áreas do Tocantins, Maranhão, Piauí e Bahia.

Foto: Divulgação / Fracht Log

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Maior capacidade regional de armazenagem

Instalado em uma área total de 107 mil m², o empreendimento reúne 17 mil m² de área construída, além de extensas áreas destinadas à movimentação e armazenagem de cargas industriais de grande porte. A capacidade anual chega a 60 mil toneladas de cargas refrigeradas e congeladas, podendo atingir 174 mil toneladas por ano quando consideradas também mercadorias secas.

O terminal conta com três câmaras de congelamento que operam até –25°C, cada uma com mil posições pallet. Uma delas já opera próxima da capacidade máxima, atendendo à espanhola Robinson Crusoe, atual cliente âncora da operação, responsável pela importação e processamento de sardinha e atum destinados à indústria de alimentos.

Segundo Abreu, o terminal atua como um “pulmão logístico” para a cadeia produtiva da empresa espanhola. “Armazenamos desde o pescado até folhas metálicas e insumos industriais utilizados na fabricação das embalagens. O cliente consegue verticalizar toda a operação logística, da importação à exportação do produto final”, explica.

Além da cadeia alimentícia, a estrutura recebe equipamentos industriais, empilhadeiras e cargas da chamada linha amarela, funcionando também como estoque avançado para distribuidores.

Aline Feltrin Foto: Divulgação / Fracht Log

Infraestrutura reforçada

Complementando a estrutura térmica, o complexo possui galpão coberto de cerca de 10 mil metros quadrados destinado a cargas industriais sensíveis à intempérie, como bobinas de aço, arames e materiais utilizados pela construção civil.

A operação frigorificada é sustentada por uma câmara fria de cerca de 1.500 metros quadrados, uma das maiores do Nordeste — equipada com dez docas capazes de operar simultaneamente e com sistema de rampas de nivelamento automáticas.

O armazém foi projetado com pé-direito de 12 metros e sistema de armazenagem verticalizada em racks galvanizados. O piso industrial suporta cargas de até sete toneladas por metro quadrado, permitindo a movimentação segura de equipamentos pesados. Já o pátio externo, com aproximadamente 65 mil metros quadrados pavimentados com intertravado de alta resistência, possibilita operações com transformadores e equipamentos superiores a 300 toneladas.

A operação emprega atualmente cerca de 50 trabalhadores diretos, número que deve chegar a 100 quando o terminal atingir 80% da capacidade operacional.

Foto: Divulgação Fracht Log

Data centers: novo vetor de demanda

Um dos novos vetores de demanda surge fora do setor tradicional de alimentos. A Fracht Log negociou a armazenagem temporária de equipamentos destinados ao futuro data center do TikTok, previsto para ser instalado na Zona de Processamento de Exportação (ZPE) do Ceará.

Os equipamentos exigem armazenamento em temperatura controlada de aproximadamente 10°C, condição incomum em operações logísticas convencionais. “São produtos de alta tecnologia que precisam de temperatura positiva controlada. Hoje somos a única estrutura operacional no Nordeste capaz de atender essa demanda”, afirma o diretor-geral da Fracht Log.

A expectativa é que os primeiros embarques cheguem ao Estado a partir de 2026, com transporte aéreo até Fortaleza e posterior deslocamento refrigerado até o Pecém.

Apoio operacional ao porto

Localizado a cerca de sete quilômetros do Porto do Pecém e diretamente conectado à rodovia de acesso portuário, o terminal opera sob contrato de cessão onerosa firmado com o Governo do Estado do Ceará, condição que permite atuação complementar às operações marítimas.

Segundo Abreu, a estrutura foi planejada para funcionar como extensão operacional do porto em momentos de maior demanda logística. “Quando o porto se aproxima do limite de armazenagem, conseguimos atuar como solucionadores logísticos”, afirma o executivo, citando operações recentes de fertilizantes transferidas diretamente do navio para o terminal por meio de procedimentos aduaneiros antecipados autorizados pela Receita Federal.

Foto: Porto do Pecém / Divulgação / Gov.br

O Complexo Industrial e Portuário do Pecém reúne porto, zona industrial e infraestrutura energética em uma área superior a 19 mil hectares voltada a operações de comércio exterior em larga escala. Com profundidade natural próxima de 18 metros, o porto opera navios de grande porte em rotas intercontinentais e movimentou cerca de 19,6 milhões de toneladas em 2024, superando pela primeira vez a marca de meio milhão de contêineres.

Pecém: “esquina do Atlântico”

A escolha do Pecém como base do investimento também está diretamente relacionada à posição geográfica do complexo portuário, considerada uma das mais estratégicas do país para rotas internacionais.

Localizado no ponto do território brasileiro mais próximo da Europa e da costa leste dos Estados Unidos entre os grandes portos nacionais, o Pecém reduz significativamente os tempos de trânsito marítimo em comparação a terminais do Sul e Sudeste.

Segundo Abreu, essa vantagem logística permite reposicionar o Nordeste como plataforma de distribuição internacional.

“O Pecém é o que chamamos de esquina do Atlântico. Em cerca de nove dias é possível chegar diretamente a Nova York. Para a Espanha são aproximadamente sete dias e, com conexões no Norte da Europa, alcança-se a Holanda em poucos dias adicionais”, afirma.

A conectividade marítima foi ampliada recentemente com novos serviços de longo curso, incluindo rotas diretas para a Ásia, com tempos médios próximos de 45 dias tanto para exportação quanto importação. A combinação entre menor distância internacional e capilaridade regional consolida o complexo como alternativa logística competitiva para cadeias industriais, agronegócio e projetos de infraestrutura energética e digital.

“Empresas que dependem de janela operacional curta, como o agronegócio, não podem esperar semanas por insumos vindos do Sul e Sudeste. A localização do Pecém permite abastecimento muito mais rápido e com menor emissão logística”, diz Abreu.

Desafio: Ausência de zonas secundárias

Abreu destaca, entretanto, um entrave estrutural para a ampliação das operações logísticas no Ceará: a inexistência de zonas secundárias alfandegadas no Estado. Atualmente, o comércio exterior cearense opera exclusivamente por meio das zonas primárias concentradas no Porto do Pecém, no Porto de Fortaleza, no Aeroporto Internacional de Fortaleza e na ZPE Ceará, o que limita a expansão de áreas retroportuárias aptas a realizar procedimentos aduaneiros fora do perímetro portuário imediato.

De acordo com o executivo, a criação de zonas secundárias permitiria maior fluidez operacional e redução de custos logísticos, ao possibilitar que estruturas privadas próximas ao complexo passassem a realizar etapas de armazenagem e desembaraço aduaneiro.

“Hoje ainda dependemos exclusivamente das zonas primárias. A abertura de zonas secundárias ampliaria a competitividade logística do Estado e permitiria distribuir melhor as operações fora da área portuária”, afirma.

Porto–cabotagem–ferrovia

A estratégia futura da Fracht Log inclui expansão da cabotagem, com o Pecém operando como centro de distribuição regional para defensivos agrícolas e insumos destinados ao agronegócio nordestino.

“Hoje muitos produtos vêm do Sul e Sudeste por rodovia. Nossa proposta é trazer por cabotagem e distribuir just in time para o Matopiba e todo o Nordeste”, afirma.

Outro vetor estratégico é a proximidade com a Ferrovia Transnordestina, cujo traçado passará a cerca de 400 metros do terminal. A empresa negocia atuar futuramente como operador logístico complementar da ferrovia, realizando unitização e preparação de cargas para exportação.

“Quando a Transnordestina estiver concluída, poderemos funcionar como braço operacional ferroviário, integrando cargas minerais, agrícolas e industriais ao porto”, afirma Abreu.

Ramp up ajustado

Segundo Abreu, os principais desafios enfrentados nesta fase inicial de operação não estão relacionados à capacidade estrutural do empreendimento, mas ao ambiente tributário e regulatório brasileiro, especialmente às diferenças de procedimentos fiscais entre os estados.

“Planejamos o terminal para operar acima da demanda inicial. Os entraves que encontramos hoje não estão na estrutura ou na capacidade operacional, mas principalmente em questões burocráticas ligadas à legislação estadual e à ausência de uma Secretaria da Fazenda unificada no país”, afirma.

Apesar disso, o executivo avalia que o desempenho operacional dos primeiros meses confirma a viabilidade econômica do investimento realizado pelo grupo suíço.

Com presença em 80 países e mais de 170 escritórios, o Brasil já representa o terceiro maior mercado do grupo suíço em volume de operações. O grupo suíço investe também na construção de duas balsas em estaleiros localizados no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, destinadas inicialmente ao mercado de óleo e gás, em um investimento estimado em US$ 5 milhões. As embarcações devem entrar em operação entre o final de 2026 e o início de 2027.

Conforme Abreu, uma das unidades já possui contrato firmado de utilização, enquanto a segunda poderá ser incorporada à mesma operação ou empregada também no transporte de cargas de projeto e em operações de cabotagem.

Nesse cenário de expansão operacional e consolidação do complexo logístico, o avanço de estruturas privadas no Pecém sinaliza uma mudança gradual no papel do Nordeste, que passa a combinar vocação exportadora, capacidade industrial e suporte logístico para operações de alto valor agregado, incluindo projetos ligados à economia digital e à transição energética.

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