A operação militar conjunta realizada por Estados Unidos e Israel contra alvos no Irã, seguida por ações retaliatórias iranianas no final de fevereiro, tende a prolongar a instabilidade no transporte marítimo internacional e reduzir significativamente as perspectivas de normalização das rotas de contêineres pelo Mar Vermelho em 2026.
A avaliação é da consultoria marítima Xeneta. Segundo a análise, o novo agravamento do conflito amplia a chamada “militarização do comércio marítimo” e praticamente inviabiliza, no curto prazo, um retorno em larga escala das linhas de navegação ao Canal de Suez.
Nos últimos meses, armadores haviam iniciado a retomada gradual de alguns serviços entre Ásia, Europa e Estados Unidos pela rota do Suez, após mais de um ano de desvios pelo Cabo da Boa Esperança em razão dos ataques promovidos por milícias houthis na região do Mar Vermelho desde o fim de 2023.
Leia mais
Montadoras abrem números iniciais de vendas no programa Move Brasil
Volvo investirá R$ 2,5 bilhões no Brasil até 2028 e projeta retração do mercado de caminhões em 2026
Shortline da Arauco vai retirar 190 caminhões por dia das rodovias e ampliar corredor de exportação
Com o risco de retomada desses ataques, entretanto, a tendência é de reversão das decisões recentes. Ainda segundo a consultoria, as transportadoras devem priorizar a segurança de tripulações, embarcações e cargas, suspendendo qualquer plano de retorno progressivo ao Mar Vermelho até que haja maior clareza sobre o cenário de segurança.
Sinais desse movimento já vinham sendo observados. A CMA CGM reverteu a decisão de retornar serviços à rota do Mar Vermelho, MSC suspendeu temporariament reservas de carga para o Oriente Médio, enquanto a Maersk redirecionou das rotas ME11 e MECL novamente pelo sul da África por razões de segurança.
Capacidade global pressionada
A manutenção das rotas mais longas ao redor do Cabo da Boa Esperança continua impactando a oferta mundial de transporte marítimo. De acordo com a Xeneta, os desvios absorvem cerca de 2,5 milhões de TEUs da capacidade global da frota de contêineres, elevando a demanda por navios e ampliando os tempos de trânsito.
Um retorno amplo ao Mar Vermelho liberaria essa capacidade adicional, reduziria prazos logísticos e poderia provocar queda acentuada dos fretes internacionais. Com esse cenário agora considerado improvável para este ano, a expectativa é de redução mais gradual das tarifas ao longo do ano.
Desde o início de 2026, as tarifas spot médias vem registrando retração relevante: queda de 32% nas rotas entre China e Costa Leste dos Estados Unidos e de 35% para a Costa Oeste. Nos serviços entre China e Norte da Europa e Mediterrâneo, as reduções acumuladas chegam a 23% e 33%, respectivamente.
Ainda assim, os níveis permanecem elevados em relação ao período anterior à crise do Mar Vermelho. Comparados a dezembro de 2023, os fretes médios continuam 48% mais altos nas rotas para o Norte da Europa e 79% superiores no Mediterrâneo — corredores mais impactados operacionalmente pelos desvios via África.
Riscos regionais
No Golfo Pérsico, os serviços de transporte de contêineres vinham operando normalmente apesar do aumento da presença militar na região. A nova escalada, porém, tende a levar armadores a evitar temporariamente a área sempre que possível.
O movimento já começa a refletir nos preços. As tarifas spot entre China e Emirados Árabes Unidos subiram cerca de 5% desde meados de fevereiro, atingindo US$ 1.572 por FEU (contêiner de 40 pés), impulsionadas pela preocupação dos embarcadores quanto à segurança das cargas.
A dependência logística regional amplia o risco operacional uma vez que não existe alternativa marítima viável para portos estratégicos como Jebel Ali caso o Golfo Pérsico se torne inacessível. Nesse cenário, as companhias marítimas tendem a omitir escalas e descarregar contêineres em portos alternativos, com posterior transporte rodoviário.
Segundo a Xeneta, essa estratégia pode provocar forte congestionamento portuário e disrupções logísticas regionais, embora sem impacto sistêmico global comparável ao observado na crise do Mar Vermelho.
Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedIn, Instagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno



