O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou R$ 3,7 bilhões em financiamentos para renovação de frota de caminhões em 1.028 municípios brasileiros. O valor corresponde a 36,8% do orçamento total de R$ 10 bilhões do programa BNDES Renovação de Frota, inserido no Move Brasil.
Do total aprovado até esta quarta-feira (26), R$ 3 bilhões já foram contratados e R$ 1,9 bilhão desembolsado. Foram autorizadas 3.318 operações, para a compra de mais de 5,8 mil equipamentos, com ticket médio de R$ 1,1 milhão.
A maior parte dos recursos foi destinada a frotistas na aquisição de caminhões novos: R$ 3,6 bilhões em 3.126 operações. Transportadores autônomos responderam por 192 contratos, somando R$ 90 milhões.
Segundo o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, o programa é estratégico para a política industrial e ambiental do governo federal, ao estimular a modernização do transporte rodoviário, reduzir emissões e apoiar a indústria nacional.
Crédito mais barato, efeito concentrado
Lançado em dezembro de 2025, o Move Brasil passou a concentrar parte relevante das negociações no início de 2026. Para Alcides Cavalcanti, diretor-executivo da Volvo Caminhões, a iniciativa melhora as condições de financiamento em um ambiente de juros elevados, mas seu impacto tende a ser mais forte no curto prazo.
“O programa impulsiona, mas antecipa”, afirmou o executivo em entrevista ao videocast Transporte Moderno. Com taxas de 1,05% ao mês — abaixo das linhas tradicionais, que variam entre 1,25% e 1,30% — o programa reduz o custo total do financiamento em contratos de longo prazo. Segundo ele, a Volvo já negociou cerca de 300 caminhões por meio da linha, principalmente para médios e grandes frotistas.
Na avaliação de Cavalcanti, o principal mérito da iniciativa é destravar decisões que estavam represadas. O modelo adotado — um Finame com recursos do Tesouro e do BNDES — é considerado mais simples do que versões anteriores de programas de renovação.
Ainda assim, ele ressalta que o orçamento de R$ 10 bilhões pode se esgotar rapidamente, possivelmente já em abril. “Quando os recursos terminarem, o mercado volta às condições normais”, disse. Para o executivo, o programa antecipa compras, mas não cria demanda estrutural adicional.
Burocracia e sucateamento limitado
Montadoras relatam que, apesar da forte procura, há entraves operacionais. A Volkswagen Caminhões e Ônibus afirma que cerca de 85% dos clientes interessados em financiamento demonstram intenção de usar o Move Brasil, mas menos de metade das operações efetivadas ocorre via programa, devido a exigências de documentação adicional e critérios como regularidade fiscal estadual.
No caso da Scania, aproximadamente 70% das operações envolvem clientes de pequeno e médio porte, indicando capilaridade além dos grandes grupos.
Embora parte do programa esteja associada à retirada de veículos antigos de circulação, a Volvo avalia que a adesão ao sucateamento tem sido limitada entre seus clientes, que operam, em geral, com frotas mais novas. Caminhões com mais de 20 anos — potenciais candidatos à substituição — são menos comuns entre grandes frotistas.
O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou que o governo avalia tornar o Move Brasil uma política permanente, com foco na substituição de veículos Euro 0, Euro 2 e Euro 3.
Mercado ainda pressionado
Apesar do impulso inicial, o cenário para 2026 segue desafiador. A Volvo projeta retração entre 5% e 10% nas vendas de caminhões pesados e semipesados em relação a 2025, quando o setor comercializou cerca de 87 mil unidades, queda de 11% frente ao ano anterior.
O recuo recente foi puxado pelos pesados, com retração próxima de 20%, enquanto os semipesados cresceram cerca de 5%, impulsionados pela distribuição urbana e pelo comércio eletrônico.
Juros elevados e crescimento econômico moderado têm levado transportadores a adiar a renovação de frota, especialmente no agronegócio. “Quando o frete está pressionado, o transportador avalia com mais cuidado o momento de renovar”, disse Cavalcanti.
Em 2025, muitos grandes frotistas compraram abaixo do padrão histórico de renovação, que varia entre 10% e 20% da frota ao ano. Parte dessa demanda reprimida pode se materializar em 2026.
No ano passado, a Volvo emplacou 20.053 caminhões e alcançou 23,2% de participação no segmento acima de 16 toneladas, mantendo a liderança. O modelo FH 540 foi o pesado mais vendido no país pelo sétimo ano consecutivo.
Mesmo em cenário mais cauteloso, o grupo anunciou investimento de R$ 2,5 bilhões no Brasil entre 2026 e 2028, voltado à modernização industrial, novos produtos e tecnologias de redução de emissões.
Para analistas do setor, o Move Brasil pode funcionar como ponto de inflexão ao reduzir o custo do capital em um ambiente de crédito restritivo. Mas o fôlego do mercado no segundo semestre dependerá da continuidade das condições favorecidas e da trajetória dos juros.



