Roubo de cargas nos EUA amplia risco para embarcadores no Brasil. Entenda os motivos

Relatório da Overhaul aponta crescimento do crime logístico na América do Norte, avanço de fraudes digitais e alta de furtos ligados a eletrônicos; tendência pressiona operações internacionais e exige reforço de rastreabilidade e validação de transportadores

Valeria Bursztein

O aumento do roubo de cargas e a rápida sofisticação dos métodos criminosos já impõem reflexos diretos às cadeias logísticas no Brasil, especialmente em rotas internacionais com maior exposição a fraudes, como importações de eletrônicos, autopeças e produtos de alto valor agregado.

Com o crescimento do comércio exterior e o avanço da digitalização no transporte, embarcadores brasileiros passam a enfrentar um risco crescente de golpes estruturados, como o sequestro de cargas via falsificação documental e uso indevido de identidade de transportadores.

A avaliação está alinhada às tendências apresentadas no relatório anual 2025 da Overhaul, empresa especializada em inteligência e monitoramento de riscos logísticos, que analisou o roubo de cargas nos Estados Unidos e no Canadá.

O estudo aponta que o crime organizado vem migrando de furtos oportunistas para esquemas sofisticados baseados em fraude, com destaque para o modelo conhecido como Deceptive Pickup (coleta fraudulenta), em que criminosos se passam por transportadores legítimos para retirar mercadorias em centros de distribuição e pontos de transbordo.

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Roubo de carga se aproxima de crime cibernético

Segundo o relatório, o crescimento das fraudes está diretamente ligado ao uso de ferramentas digitais, plataformas de intermediação e falhas de verificação em processos logísticos. A Overhaul descreve que criminosos têm explorado recursos como edição de documentos, roubo de IDs de carga, ataques de phishing e falsificação de e-mails para simular operações reais.

A empresa também destaca que o roubo de carga passou a se integrar a práticas típicas de fraude corporativa, como “double brokering” e “triple brokering”, além de esquemas com criação de transportadoras falsas e identidades sintéticas.

O estudo aponta ainda o uso crescente de tecnologias de fraude baseadas em inteligência artificial, incluindo clonagem de voz e spoofing de e-mails, o que amplia o desafio de rastrear e interromper ataques.

EUA projetam alta em 2026

Nos Estados Unidos, a Overhaul registrou 2.576 ocorrências de roubo de carga em 2025, volume que representa alta de 16% em relação a 2024. O número equivale a uma média de 214,6 ocorrências por mês e 7,16 roubos por dia, acima dos 6,07 por dia registrados no ano anterior.

O relatório também indica que o risco aumentou no segundo semestre, com quase 60% das ocorrências concentradas na segunda metade do ano. Para 2026, a projeção é de crescimento de pelo menos 13%, com expectativa de avanço de 2.576 para 2.910 ocorrências.

A distribuição geográfica do roubo de cargas nos Estados Unidos segue altamente concentrada em corredores logísticos e grandes centros urbanos. Em 2025, Califórnia respondeu por 38% das ocorrências, seguida pelo Texas, com 20%. Somados, os dois estados representaram 58% de todos os roubos registrados no país.

O relatório destaca ainda a presença de hotspots em áreas estratégicas como Los Angeles, San Bernardino, San Francisco, Dallas, Atlanta e Memphis, indicando uma concentração do crime próximo a hubs logísticos e centros de distribuição.

Pelo quinto ano consecutivo, eletrônicos foram a categoria mais roubada, respondendo por 22% do total de ocorrências em 2025. Em seguida aparecem alimentos e bebidas (15%), produtos para o lar e jardinagem (11%) e vestuário & calçados (11%).

Coleta fraudulenta cresce 35%

O relatório aponta que a coleta fraudulenta (quando criminosos se passam por transportadores legítimos para retirar a carga) foi o tipo de ocorrência com maior expansão em 2025, com crescimento de 35% em relação a 2024, tornando-se o modelo de roubo mais distribuído e com maior tendência de avanço nos próximos anos.

A análise histórica da Overhaul indica que esse tipo de crime aumentou 91% de 2022 para 2023, subiu 57% em 2024 e voltou a crescer em 2025, mesmo com desaceleração. Para 2026, a projeção é de alta mínima de 18%.

O relatório também destaca que a segunda metade de 2025 concentrou a aceleração desse tipo de roubo, com aumento de 46% no segundo semestre, e meses como julho, outubro e novembro entre os mais críticos.

Armazéns e CD ampliam exposição logística

O relatório mostra que armazéns e centros de distribuição seguem como o principal alvo, respondendo por 36% das ocorrências em 2025, com aumento de 10% em relação a 2024. Em seguida aparecem postos e paradas de abastecimento, com 17%, e estacionamentos não protegidos, com 11%, embora essa última categoria tenha apresentado forte queda.

Um dado que chama atenção é o aumento de ocorrências ligadas a ferrovias, que passaram a representar 8% do total, com alta de 44% frente ao ano anterior.

A Overhaul classifica o risco de roubo de cargas nos Estados Unidos e Canadá como alto e em crescimento, impulsionado pela sofisticação do crime organizado e pela migração para fraudes estruturadas.

E no Brasil?

No Brasil, o roubo de cargas segue como um dos principais desafios do transporte rodoviário, com dados oficiais e setoriais indicando níveis elevados de criminalidade logística que pressionam embarcadores, transportadores e seguradoras.

Entre janeiro e setembro de 2024, o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) registrou cerca de 7.244 roubos de carga nas rodovias brasileiras, uma média de 27 incidentes por dia, reflexo da vulnerabilidade em corredores logísticos essenciais.

Relatórios da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística) estimam que mais de 10 mil roubos foram registrados ao longo de 2024, com crescimento de quase 25% no primeiro semestre de 2025 em comparação com o ano anterior.

A geografia do crime no país destaca a região Sudeste como epicentro das ocorrências, com São Paulo respondendo por cerca de 35% a 43% dos casos, seguido pelo Rio de Janeiro (30% ou mais) e por Minas Gerais.

Esse padrão reflete a concentração das operações logísticas em eixos como as rodovias BR-116 e BR-381, que ligam grandes centros de distribuição aos principais portos e hubs — entre eles o Porto de Santos, o aeroporto de Viracopos/Campinas e os polos de Guarulhos/GRU, articulações fundamentais para importações e exportações de eletrônicos, autopeças e bens de consumo.

A predominância de roubos com violência armada e a recorrência de alvos de alto valor agregado reforçam a necessidade de protocolos robustos de rastreabilidade, validação de operadores e segurança eletrônica, especialmente em rotas que cruzam múltiplos estados e interfaces modais.

A combinação de riscos domésticos persistentes com as tendências de fraude digital documentadas em estudos internacionais eleva o desafio para embarcadores brasileiros que dependem de cadeias globais integradas.

Recomendações

O relatório da Overhaul recomenda que embarcadores reforcem processos de validação de transportadores, adotem controles multicamadas e ampliem o uso de rastreamento em tempo real para identificar desvios de rota, paradas não autorizadas e tentativas de coleta fraudulenta.

Segundo a empresa, falhas mínimas em protocolos de liberação podem abrir brechas para ataques altamente organizados, que se aproveitam de urgências operacionais e mudanças de última hora em coletas e transportadoras.

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