Fim da jornada 6×1 pode elevar custos e agravar falta de motoristas, diz CNT

Confederação afirma que mudança sem negociação coletiva pode pressionar tarifas, afetar serviços essenciais e ampliar impacto fiscal

Aline Feltrin

A Confederação Nacional do Transporte (CNT) manifestou preocupação com a proposta de mudança na jornada de trabalho que prevê o fim da escala 6×1. Em nota divulgada nesta semana, a entidade afirma que o setor produtivo está aberto ao diálogo, mas defende que qualquer alteração seja conduzida “com responsabilidade, previsibilidade e compromisso com o país”.

Segundo a confederação, o transporte é uma atividade essencial e estratégica para a economia, responsável por assegurar o direito constitucional de locomoção e viabilizar o deslocamento de bens e serviços em todo o território nacional. O setor opera de forma contínua, 24 horas por dia, atendendo cadeias como saúde, educação, indústria, comércio e serviços públicos.

Para a CNT, a eventual redução da jornada, sem considerar as especificidades do transporte, pode provocar efeitos relevantes sobre a oferta de serviços. A entidade sustenta que já há dificuldades expressivas na reposição de mão de obra qualificada, o que poderia se agravar com a diminuição da carga horária.

Mais da metade das empresas relatam falta de motoristas

Levantamento da própria confederação indica que, no transporte rodoviário de cargas, 65,1% das empresas relatam falta de motoristas profissionais. Outros 19,2% apontam escassez de mecânicos e profissionais de manutenção; 15,1%, de gerentes operacionais; e 14,4%, de trabalhadores administrativos.

No transporte urbano de passageiros, pesquisa mais recente mostra que 53,4% das empresas enfrentam falta de motoristas, enquanto 63,2% relatam carência de mecânicos e profissionais de manutenção. Também são citados problemas como falta de qualificação (41,4%), baixa experiência (40,8%) e reduzida atratividade da profissão (33,3%).

Na avaliação da entidade, reduzir a jornada em um cenário de escassez de trabalhadores ampliaria o déficit de mão de obra, elevaria custos operacionais e poderia comprometer a regularidade dos serviços prestados à população.

A confederação também chama atenção para os possíveis efeitos fiscais. Como a medida não se restringiria ao setor privado, mas alcançaria a administração pública, a CNT argumenta que a mudança poderia pressionar ainda mais as contas públicas, ao exigir novas contratações e aumentar despesas com pessoal em um contexto de restrição orçamentária.

A entidade defende que o tema seja tratado prioritariamente por meio de negociação coletiva entre trabalhadores e empregadores. Segundo a CNT, esse instrumento permitiria ajustar as condições de trabalho às características de cada setor, região e empresa, garantindo segurança jurídica e respeito às especificidades das atividades econômicas. A confederação ressalta que, nos segmentos em que a jornada 5×2 é viável, ela já é adotada.

Ao final da nota, a CNT afirma que está à disposição do Congresso Nacional e do governo federal para contribuir tecnicamente com o debate e reforça que eventuais mudanças devem ser guiadas por critérios técnicos, evitando decisões que possam gerar impactos negativos para a sociedade e para a economia.

Risco de repasse de custos ao consumidor

O Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região (Setcesp) — também se posicionou sobre a proposta e alertou para impactos operacionais no Transporte Rodoviário de Cargas (TRC), setor responsável pela circulação de alimentos, medicamentos, insumos industriais e bens de consumo em todo o país.

Segundo a entidade, o TRC opera com prazos rígidos, janelas de coleta e entrega e um ambiente regulatório complexo, o que exige planejamento e disponibilidade contínua de mão de obra. Nesse contexto, mudanças estruturais na jornada de trabalho precisariam considerar as especificidades da atividade para evitar perda de eficiência logística.

“Um dos principais pontos de atenção é a falta de mão de obra, especialmente de motoristas profissionais. A redução da carga horária, sem a existência de trabalhadores disponíveis no mercado, tende a agravar esse cenário”, afirma Marcelo Rodrigues, presidente do SETCESP.

O sindicato também destaca impactos sobre produtividade e custos. Para manter o mesmo nível de serviço com jornadas menores, as empresas poderiam ser obrigadas a ampliar o quadro de funcionários, elevando despesas operacionais, administrativas e trabalhistas.

“É importante lembrar que esses custos não desaparecem. Eles acabam sendo diluídos na cadeia logística e, no final, quem sentirá o peso no bolso será o consumidor”, afirma Rodrigues.

O SETCESP defende que eventuais mudanças sejam discutidas no âmbito da modernização da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com diálogo técnico e análise dos impactos econômicos e sociais, especialmente em setores estratégicos como o transporte de cargas. A entidade também se colocou à disposição para contribuir com dados e estudos no debate junto ao Congresso Nacional.

Ao final, tanto a CNT quanto o SETCESP reforçam que apoiam avanços nas relações de trabalho, mas avaliam que alterações dessa magnitude exigem avaliação técnica criteriosa para evitar efeitos colaterais sobre a logística, os preços e o abastecimento no país.

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