ONE aposta em navios prontos para amônia e metanol

Artur Bezerra, presidente da ONE Brasil, sexta maior companhia marítima do mundo em capacidade, afirma que incerteza na IMO sobre descarbonização no setor não altera estratégia de frota e aponta investimentos em navios preparados para amônia e metanol

Valeria Bursztein

A indefinição da Organização Marítima Internacional (IMO) sobre o Net-Zero Framework e o adiamento da decisão sobre um mecanismo global de precificação de carbono ampliaram a incerteza regulatória no transporte marítimo internacional, em um momento em que armadores precisam tomar decisões de longo prazo sobre renovação de frota, adoção de combustíveis alternativos e investimentos em eficiência energética.

Apesar desse cenário, a Ocean Network Express (ONE) afirma que mantém sua estratégia de descarbonização e o compromisso de zerar suas emissões até 2050, independentemente do ritmo das definições globais.

Para a companhia, a transição energética no transporte marítimo não depende apenas de decisões regulatórias globais, mas de um movimento irreversível impulsionado por exigências regionais, legislações portuárias e pela demanda de embarcadores por cadeias logísticas menos intensivas em carbono.

“A sustentabilidade é um imperativo central que guia nossa estratégia de longo prazo, independentemente de flutuações em cronogramas regulatórios”, afirma Artur Bezerra, presidente da ONE Brasil. Segundo ele, a companhia já reduziu em 63% a intensidade de emissões de Escopo 1 em relação ao ano-base de 2008 e pretende alcançar 70% de redução até 2030, como meta intermediária no caminho do net zero.

Precificação de carbono: desafio regulatório

Entre as consequências do adiamento por um ano para a definição do Net-Zero Framework definido pela IMO, o mecanismo global de precificação de carbono continua em aberto, gerando especulações. O mercado trabalha com a expectativa de que uma eventual taxa global possa se aproximar de US$ 100 por tonelada, o que tende a pressionar custos e redefinir estratégias de frota e de frete no setor.

Para Bezerra, no entanto, o principal desafio não está no custo potencial, mas na necessidade de maior previsibilidade regulatória para orientar investimentos de longo prazo. “Monitoramos de perto as discussões da IMO e as expectativas do mercado e continuamos a calibrar nossa abordagem à medida que a clareza regulatória melhora”, diz.

Segundo ele, a empresa busca assegurar que qualquer medida de precificação esteja alinhada a um ciclo consistente de investimentos em navios, sistemas e terminais preparados para novas exigências ambientais.

O executivo destaca que a companhia já opera em conformidade com o limite de enxofre estabelecido pela IMO 2020, uma das principais referências regulatórias recentes para o setor marítimo.

Frota preparada para amônia e metanol

A ONE afirma que acelerou os investimentos em eficiência energética e em embarcações preparadas para operar com combustíveis alternativos. “A ONE investiu significativamente em eficiência energética e em navios porta-contêineres preparados para amônia/metanol”, afirma o executivo.

Um dos principais projetos da companhia é a encomenda de 20 navios de grande porte, a maioria já entregue. Segundo ele, embarcações como ONE Synergy e ONE Strength já operam na costa brasileira.

Esses navios foram projetados com preparação para combustíveis como amônia e metanol, design de casco otimizado para eficiência energética, dispositivos de economia de energia e integração de tecnologia inteligente para melhoria de desempenho. A frota também possui capacidade de conexão a shore power (energia em terra), o que permite estadias com emissão zero durante a operação portuária.

Assimetrias no curto prazo

O adiamento da definição do mecanismo global da IMO pode, no curto prazo, reduzir a pressão sobre armadores que ainda operam frotas mais convencionais. Para a ONE, porém, esse efeito tende a ser limitado, diante da crescente imposição de regras regionais e de legislações portuárias que já exigem mudanças imediatas.

“Embora o atraso possa parecer um fôlego para as operações convencionais, observamos que o movimento global em direção à sustentabilidade continua”, afirma Bezerra. Na avaliação do executivo, a competitividade do setor será definida pela eficiência energética e pela capacidade de antecipar mudanças estruturais na matriz de combustíveis.

O executivo também cita o avanço dos chamados corredores verdes como evidência de que os principais players já operam em um novo patamar de exigência ambiental. Entre os exemplos estão iniciativas em rotas como Xangai–Los Angeles e Cingapura–Roterdã.

Fragmentação regulatória

Outra consequência da indefinição no âmbito da IMO é a ampliação do risco de proliferação de regulações regionais, como o EU ETS, sistema europeu de comércio de emissões que passou a incluir o transporte marítimo. Para Bezerra, a fragmentação regulatória impõe desafios operacionais relevantes, mas pode ser administrada com estrutura descentralizada e agilidade de governança.

“Como uma empresa global operando em mais de 120 países, a ONE reconhece que a fragmentação regulatória impõe desafios operacionais complexos. No entanto, nossa estrutura de governança, com sedes regionais e escritórios locais, nos permite transformar esses desafios em vantagem estratégica”, afirma o presidente da ONE Brasil.

Segundo ele, a empresa adota uma abordagem “lean e ágil” para responder rapidamente a mudanças de mercado e à evolução de requisitos ambientais em diferentes regiões.

Fundo IMO Net Zero

Para o executivo, mecanismos de financiamento como o Fundo IMO Net Zero são essenciais para viabilizar a pesquisa e o desenvolvimento de combustíveis alternativos e apoiar a modernização da frota global. Bezerra avalia que, para cumprir seu papel, o instrumento precisará assegurar alocação eficiente de recursos, especialmente em países em desenvolvimento.

“Mecanismos de financiamento são cruciais para catalisar P&D em combustíveis alternativos. A escala do desafio exige investimentos massivos em infraestrutura de combustível limpo e modernização da frota”, diz. Segundo ele, a aplicação de recursos deve priorizar pontos com maior impacto, com foco em transição equitativa e modernização da logística global.

Bezerra conta que a ONE já participa desse ecossistema por meio de parcerias estratégicas, como o Global Centre for Maritime Decarbonisation (GCMD).

IA e biocombustíveis

Apesar da discussão regulatória em torno de 2050, a ONE afirma que o avanço depende da implementação concreta de medidas operacionais e tecnológicas no curto prazo. Bezerra avalia que a credibilidade do setor não está vinculada apenas ao calendário regulatório, mas à demonstração de progresso tangível em eficiência e redução de emissões.

“Embora quaisquer atrasos regulatórios criem desafios, o que mais importa agora é acelerar a implementação concreta”, afirma. Segundo ele, a companhia vem aplicando iniciativas como roteirização baseada em inteligência artificial e otimização de operações de estivagem, com apoio de uma equipe global dedicada a aconselhamento de rotas oceânicas.

De acordo com o executivo, no campo técnico, a ONE já realiza modificações em cascos e hélices, com adoção de tecnologias voltadas à redução de resistência e consumo, além de ampliar o uso de biocombustíveis.

A companhia lançou ainda o programa ONE LEAF+, voltado a clientes que buscam reduzir emissões de Escopo 3 em suas cadeias logísticas por meio do uso de combustíveis alternativos certificados.Mesmo com indefinições na IMO, a ONE considera que a rota de descarbonização tende a ser irreversível e que o diferencial competitivo será a capacidade de antecipar investimentos.

“A competitividade a longo prazo pertencerá àqueles que liderarem em eficiência energética”, afirma Bezerra.

Escala global e presença no Brasil

A Ocean Network Express (ONE) está entre as maiores companhias globais de transporte marítimo de contêineres, ocupando atualmente a sexta posição entre os armadores por capacidade, com cerca de 2 milhões de TEUs, segundo ranking internacional publicado pelo Container News e dados institucionais divulgados pela própria ONE em seus relatórios corporativos.

Criada em 2017 a partir da união dos armadores japoneses NYK, MOL e K Line, a empresa iniciou operações em abril de 2018 e consolidou-se como um player de escala global, com atuação em mais de 120 países.

Ainda segundo rankings internacionais, como os do Alphaliner e do Container News, que monitoram a capacidade global dos armadores em TEUs, a ONE responde por aproximadamente 6% da capacidade mundial de transporte de contêineres, competindo diretamente com grupos como MSC, Maersk, CMA CGM e COSCO.

No Brasil, a ONE tem ampliado sua presença comercial e operacional, reforçando sua atuação em rotas ligadas ao comércio exterior do país, com destaque para a movimentação de contêineres via Porto de Santos (SP) e conexões internacionais com Ásia, Europa e América do Norte.

A companhia também fortalece sua estrutura local por meio de parcerias e expansão da rede de agenciamento marítimo, além de iniciativas voltadas à modernização da frota e sustentabilidade, como programas para uso de combustíveis alternativos e soluções digitais para rastreamento e cálculo de emissões.

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