Montadoras abrem números iniciais de vendas no programa Move Brasil

Iveco, Scania e DAF detalham operações no programa que já liberou quase R$ 2 bilhões em crédito e começa a destravar a demanda por caminhões no país

Aline Feltrin

Pouco mais de um mês após o lançamento do programa de renovação de frota Move Brasil, as montadoras começam a divulgar os primeiros números das operações realizadas com recursos da iniciativa. Levantamento do portal Transporte Moderno junto às fabricantes mostra que a Iveco lidera em volume de financiamentos, com cerca de 300 operações, seguida pela Scania, com aproximadamente 280 contratos, e pela DAF, que contabiliza 117 financiamentos até o momento.

Mercedes-Benz e Volvo informaram que, por ora, não pretendem abrir seus dados. Já no caso da Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO), Ricardo Alouche, vice-presidente de vendas, marketing e serviços da Volkswagen Caminhões e Ônibus, afirma que o interesse dos clientes pelo programa é elevado, mas esbarra em entraves operacionais. “Estimamos que cerca de 85% dos clientes que necessitam de financiamento demonstram interesse em contratar crédito via Move Brasil. No entanto, o processo ainda é bastante burocrático, com exigência de documentação adicional, o que resulta em uma taxa relevante de não aprovação. Com isso, parte dos clientes acaba migrando novamente para o CDC”, explica.

Segundo o executivo, atualmente menos de 50% dos financiamentos efetivados pela VWCO são realizados por meio do Move Brasil. Ainda assim, Alouche avalia que o programa tem efeito positivo sobre o mercado como um todo. “O Move Brasil está movimentando o setor e impulsiona não apenas as vendas financiadas pelo próprio programa, mas também as operações via CDC. Além disso, é uma iniciativa em expansão diária, o que torna qualquer percentual divulgado agora rapidamente desatualizado”, afirma.

Os dados surgem em um momento em que o programa já liberou quase R$ 2 bilhões em crédito, de um total de R$ 10 bilhões disponíveis, segundo o governo federal. O desempenho inicial reforça a avaliação de que o Move Brasil vem ajudando a destravar a demanda por caminhões em um mercado que começou 2026 em retração.

No caso da Scania, a montadora informou ainda que cerca de 70% das operações realizadas envolvem clientes de pequeno e médio porte, indicando que o alcance do programa vai além dos grandes frotistas. As demais fabricantes não divulgaram o perfil dos compradores.

Diante da adesão inicial, o governo federal avalia transformar o Move Brasil em uma política permanente. O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou que o programa tem impacto estrutural ao estimular a retirada de circulação de caminhões mais antigos. O foco, segundo ele, é acelerar a substituição de veículos Euro 0, Euro 2 e Euro 3, com ganhos em eficiência operacional, segurança viária e redução de emissões.

Alckmin também destacou que o ritmo das liberações pode levar a uma revisão para cima das estimativas de vendas adicionais de caminhões, especialmente diante da expansão do comércio exterior e do avanço da produção agrícola. Para o governo, o crédito é um dos principais pilares de sustentação da indústria nacional de veículos comerciais.

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Efeitos a partir de março

Os impactos do programa sobre os emplacamentos devem se tornar mais visíveis a partir de março, segundo o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Igor Calvet. Em entrevista coletiva na última sexta-feira (6), ele afirmou que, apesar da forte retração registrada no início do ano, já há um aumento significativo da procura por financiamento nas concessionárias.

Relatos do setor indicam que, em alguns pontos de venda, a demanda por crédito cresceu mais de 30% entre dezembro e janeiro. Esse movimento tende a se converter em vendas e desembolsos ao longo do primeiro trimestre, à medida que as operações avançam para a fase de entrega dos veículos.

Nesta etapa inicial, os grandes frotistas devem concentrar uma parcela relevante dos recursos, por contarem com maior capacidade financeira e planejamento de longo prazo, com financiamentos que podem chegar a 12 anos. Ainda assim, o programa também registra operações com caminhoneiros autônomos e pequenos empresários — perfil considerado estratégico para a renovação da frota circulante no país.

Na avaliação de Gregori Boschi, sócio-fundador da consultoria Boschi Inteligência de Mercado (BIM³), o Move Brasil pode representar um ponto de inflexão para o mercado de caminhões. Em análise recente ao videocast Transporte Moderno, ele afirmou que o programa não apenas estimula a demanda no curto prazo, mas reduz o custo efetivo do capital em um ambiente de juros ainda elevados, contribuindo para restaurar a confiança de compradores e fabricantes.

Segundo Boschi, a velocidade das liberações evidencia a existência de uma demanda reprimida relevante, especialmente entre pequenos e médios transportadores, que vinham adiando decisões de renovação de frota. Além disso, a vinculação do programa a critérios de eficiência energética e conteúdo local pode gerar efeitos estruturais, ao acelerar a modernização da frota, melhorar a competitividade da indústria nacional e suavizar os ciclos de baixa do setor.

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