A Arauco lançou a pedra fundamental da primeira shortline ferroviária pós-marco regulatório, projeto que viabilizará o escoamento da produção do Projeto Sucuriú, em Inocência (MS), por ferrovia até o Porto de Santos.
O ramal, com 45 km de extensão, é considerado peça central da estratégia logística da companhia de origem chilena e deve reduzir o tráfego rodoviário em cerca de 190 viagens diárias de caminhões, além de ampliar a competitividade do Mato Grosso do Sul no corredor exportador.
A iniciativa representa um avanço logístico significativo para o empreendimento e para a competitividade da cadeia produtiva de celulose no Brasil, ao mesmo tempo em que se insere no novo arcabouço regulatório ferroviário. O evento também deu destaque para a atenção conquistada pelo estado do Mato Grosso do Sul e pela região, que vêm atraindo investimentos relevantes do governo federal e da iniciativa privada.
“A ferrovia nasceu junto com a fábrica. Ela não foi pensada como complemento, mas como parte do processo industrial. Aqui, os trens chegarão e partirão diretamente da planta, com carregamento em uma estrutura desenhada para máxima eficiência e segurança operacional”, afirmou Alberto Pagano, diretor de Logística e Suprimentos da Arauco Celulose Brasil, ressaltando a integração entre a ferrovia e o processo fabril.
O traçado contempla 45 quilômetros de linha férrea, além de 9 quilômetros dentro da fábrica, seguindo paralelamente às rodovias MS-377 e MS-240 até a conexão com a Rumo Malha Norte, em direção ao Porto de Santos (SP), por onde a carga será exportada.
O novo ramal foi projetado para operar com trens de até 100 vagões e escoar a produção diária de 11 mil toneladas de celulose — 3,5 milhões de toneladas/ano –, prevista para entrar em operação ao final de 2027, quando se espera a conclusão da construção da planta.

Um dos diferenciais do desenho operacional é que a ferrovia entrará diretamente no galpão de celulose, permitindo o carregamento mesmo em condições de chuva. Também será construída uma pera ferroviária, onde a locomotiva posicionará os vagões para abastecimento antes de retomar a composição e seguir para a conexão com a malha ferroviária existente, de onde a carga seguirá em direção ao corredor de exportação.
“Serão 721 vagões da Randon e 26 locomotivas da Wabtec em plena capacidade. Isso não são apenas números; é escala, previsibilidade, sustentabilidade e competitividade para o Brasil”, acrescentou Pagano, ao destacar que o projeto reduzirá cerca de 190 viagens de caminhões por dia nas rodovias, fortalecendo a segurança viária e diminuindo o desgaste da infraestrutura pública.
O lançamento da obra ocorre em um momento em que o Brasil mantém produção elevada de celulose e forte presença no comércio internacional. O país produz cerca de 25 milhões de toneladas por ano, mas consome aproximadamente 7 milhões, destinando o excedente — em torno de 18 milhões de toneladas — ao mercado externo. Nesse cenário, a expectativa da Arauco é que a shortline e a conexão direta com o Porto de Santos represente uma alternativa logística mais sustentável e competitiva do que a dependência exclusiva do transporte rodoviário.
“O que celebramos hoje não é apenas o começo da construção de uma ferrovia, mas uma decisão estratégica e uma visão de longo prazo. O Projeto Sucuriú já nasce conectado ao mundo”, afirmou Carlos Altimiras, presidente da Arauco Brasil.
Para ele, o empreendimento “se consolidou como o maior projeto de celulose do mundo implantado em etapa única”, desafiando tanto a indústria como a logística nacional. “A ferrovia é um dos pilares estruturantes do projeto. Ela amplia a capacidade logística do país, fortalece a integração com as malhas nacionais e cria condições reais para novos investimentos privados em infraestrutura”, disse Altimiras.
Leia mais:
Nova regra do frete: entenda o cálculo do piso mínimo
Urubatan Helou, diretor-presidente da Braspress:“O transporte fracionado exige uma sofisticação de gestão que poucos conseguem sustentar”
Mercosul–UE: o que o acordo muda na estratégia das montadoras de caminhões no Brasil
Mato Grosso do Sul e integração nacional
Para o ministro dos Transportes, Renan Filho, a obra simboliza um avanço logístico ainda mais amplo. “Essa região já escoa parte da produção pelo Porto de Santos. O que muda agora é o ganho de eficiência: a ferrovia vai ampliar o volume gradualmente, mas reduzindo caminhões nas estradas e aumentando a segurança”, afirmou.
Segundo o ministro, a ferrovia representa “uma nova rota de desenvolvimento”. Ele anunciou que, ainda neste ano, o governo federal fará o leilão de revitalização da Malha Oeste, iniciativa que deverá reintegrar o Mato Grosso do Sul à malha ferroviária nacional. “A União vai aportar R$ 3 bilhões para recuperar essa linha. Essa ferrovia será uma rota estratégica para a celulose”, declarou Renan Filho, destacando o papel da infraestrutura para reduzir custos logísticos e ampliar a competitividade das exportações brasileiras.
“O Brasil produz 25 milhões de toneladas de celulose por ano e consome apenas sete milhões. Dezoito milhões são exportadas. Quanto mais distante do porto, maior a necessidade de infraestrutura. O Mato Grosso do Sul passa a ganhar competitividade logística para exportar”, acrescentou o ministro ao explicar a lógica de investimentos ferroviários e rodoviários integrados.
Para Eduardo Riedel, governador do Mato Grosso do Sul, a perspectiva é de transformação estrutural para o Estado: “A Malha Oeste deve ir a leilão ainda este ano com uma modelagem moderna. O trecho prioritário é Três Lagoas–Campo Grande, e há interesse privado também em conexões complementares com a Malha Paulista. Daqui a dez anos, o Mato Grosso do Sul será outro.”
Riedel também comentou os desafios imediatos gerados pelo crescimento acelerado. “Inocência vive as dores do crescimento. Uma cidade de nove mil habitantes recebendo dez mil trabalhadores gera pressão imediata, principalmente em habitação, além de saúde, educação e serviços”, disse, destacando esforços integrados entre governo estadual, União e iniciativa privada para mitigar gargalos urbanos e sociais.
“A logística define competitividade. Além da ferrovia, estamos investindo em acessos rodoviários e obras como duplicações, terceiras faixas e viadutos para suportar o fluxo crescente de cargas”, afirmou o governador, ao citar investimentos em pavimentação e infraestrutura que complementam o avanço ferroviário.
Projeto Sucuriú: engenharia, escala e integração
O gigantismo do Projeto Sucuriú, da Arauco, fica evidente nos números. O empreendimento ocupa 3.500 hectares de uma área da pequena cidade de Inocência (MS). As obras preliminares exigiram a movimentação de 5,5 milhões de metros cúbicos de terra na terraplanagem inicial e a construção de toda infraestrutura básica da planta antes do início das atividades industriais.
O avanço físico da obra está em 44%, com cerca de 9,2 mil trabalhadores atualmente no canteiro e previsão de pico de 14 mil empregos ainda em 2026. A produção está prevista para iniciar no final de 2027, com capacidade plena em 2028.
O complexo inclui um sistema hídrico com um reservatório de 110 mil m³ para captação de água de chuva e uma estação de tratamento com capacidade para 54 mil m³ armazenados e 12 mil m³ por hora tratados. A distribuição interna de água, gás e produtos químicos se dá por meio de cerca de 300 módulos de tubulação interligados.
A planta industrial terá duas linhas de fibras com dois digestores de 55 mil toneladas secas, 20 prensas para redução da umidade da polpa, três linhas de secagem e capacidade de produção de 11 mil toneladas por dia. A energia será gerada internamente, com capacidade de até 556 MW, e parte será exportada ao sistema elétrico, volume suficiente para abastecer uma cidade de cerca de 800 mil habitantes.
*A repórter viajou a Inocência (MS) a convite da Arauco Brasil.
Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedIn, Instagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno



