Na edição 11, de junho de 1964, a Transporte Moderno descreveu o rádio como ferramenta capaz de “dirigir frotas”. Hoje, voz é só uma camada: a gestão passou a operar por telemetria, aplicativos, vídeo e integração com sistemas corporativos, em tempo real. Veja a edição completa aqui.
Na reportagem, a revista Transporte Moderno, descreveu a radiocomunicação como um divisor de águas para o transporte rodoviário. A promessa era direta: contato instantâneo entre matriz, filiais e veículos, mais segurança e maior rendimento operacional.
O texto detalhava a combinação de VHF para tráfego urbano, SSB para longas distâncias e CW para radiotelegrafia, e trazia exemplos de redes estruturadas — como a da Viação Cometa — e aplicações práticas em operações sensíveis, como as betoneiras da Concretex.
Décadas depois, a ideia central permanece: reduzir incerteza e aumentar controle. O que mudou foi o “como”. Se antes a frota era “dirigida” por voz e disciplina operacional, hoje ela é gerida por dados: localização, status de entrega, eventos de condução, temperatura, imagens, rotas, paradas, exceções e alarmes chegam automaticamente às centrais — e muitos retornos ao motorista são acionados por regras e plataformas, não por chamadas.
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Rádio: o centro nervoso da operação
O diagnóstico da época era claro: em mercados mais maduros, a radiocomunicação já era indispensável, mas o transporte rodoviário brasileiro ainda adotava o recurso de forma limitada. A tecnologia, porém, já aparecia como solução para problemas que continuam atuais: congestionamentos, reprogramação de rota, emergência mecânica, coordenação entre base e veículo, e combate ao “rodar vazio”.
Na lógica do VHF/SSB, a operação se organizava por troca ativa de mensagens. O motorista informava, a base decidia e devolvia instruções. A eficiência dependia de processos: disciplina de comunicação, cobertura de rede, repetidoras, manutenção local, treinamento e padronização.
“Falar com o caminhão” x “Ler o caminhão”
A virada tecnológica mais relevante não foi apenas trocar o rádio pelo celular. Foi transformar a comunicação em um fluxo contínuo de dados entre veículo, motorista e sistemas corporativos.
Hoje, a central não precisa esperar o motorista relatar o que está acontecendo para agir. Telemetria e rastreamento alimentam painéis de controle com posição, velocidade, consumo, eventos de frenagem, tempo parado, entrada e saída de geocercas, alertas de manutenção e status de jornada.
Em operações de maior criticidade, vídeo embarcado e sensores ampliam a visibilidade do que ocorre na cabine e no entorno do veículo, criando evidências e encurtando o tempo de resposta.
O que antes era um “contato instantâneo” por rádio virou um modelo de supervisão contínua, no qual parte da comunicação é automatizada: o sistema avisa, registra, sugere e, em alguns casos, bloqueia ou restringe comportamentos conforme regras.
Da cobertura por repetidoras à conectividade híbrida
Na edição 11 da Transporte Moderno, o alcance do VHF era descrito como dependente de altura de antena, potência e linha de visada — e a ampliação vinha por estações repetidoras ao longo das rotas. Essa arquitetura, típica de redes privadas, exigia investimento e planejamento e tinha limites geográficos claros.
Hoje, a conectividade do transporte se apoia principalmente em redes públicas (4G/5G), mas evoluiu para modelos híbridos, combinando múltiplas operadoras, redundância e, em rotas remotas, satélite. Isso muda o patamar de disponibilidade. O que era “cobrir um corredor” passa a ser “cobrir o país”, com variações de qualidade e custo, mas com uma tendência consistente de ampliar continuidade.
E quando o sinal falha, muitos sistemas operam em modo de armazenamento e sincronização: registram eventos localmente e enviam assim que há rede, reduzindo a perda de informação operacional.
Voz virou mais uma interface
O rádio da edição 11 era, essencialmente, voz. Hoje, a voz continua relevante, mas ocupa outra função: exceção, emergência, coordenação pontual, alinhamento humano. Em paralelo, mensagens e ordens de serviço chegam por aplicativo; comprovantes e ocorrências podem ser documentados com foto; rotas são atualizadas por navegação; e “push-to-talk” migrou para smartphones e terminais dedicados, com registro e auditoria.
Na prática, o caminhoneiro deixou de ser apenas o “relator” do que acontece na estrada. Ele opera como um nó de um sistema: confirma etapas, registra evidências e recebe instruções com base em dados que a própria operação produz automaticamente.
Valor de responder antes do prejuízo
A passagem mais atual da matéria histórica é a situação relatada pela empresa Concretex, que trata do risco de solidificação concreto pela parada da betoneira. Ali, o rádio era o recurso para chamar ajuda antes que fosse tarde, evitando perda de carga e danos operacionais.
Hoje, essa lógica se desdobra em prevenção: sensores e telemetria capturam anomalias (temperatura, rotação, falhas, paradas críticas), e a central é acionada por alerta automático. Em muitas operações, a manutenção deixa de ser reativa para se aproximar da preditiva, com monitoramento do veículo e programação de intervenção antes da quebra.
A promessa de “evitar o prejuízo” permanece a mesma. O mecanismo mudou: do pedido de socorro por voz para a detecção automática de risco e resposta coordenada.
De “dirigir a frota” a orquestrar uma cadeia
A reportagem da edição 11 tratava o rádio como instrumento para elevar rendimento e segurança. Hoje, a comunicação entre caminhoneiro e central é apenas uma parte de uma engrenagem maior: a orquestração da cadeia logística, integrando transportadora, embarcador, armazéns, pátios, gerenciamento de risco, roteirização, documentos digitais e janelas de entrega.
Isso desloca o valor do “falar” para o “integrar”. O ganho não está só em localizar o caminhão, mas em sincronizar recursos — docas, equipes, horários, carga, escolta, abastecimento, restrições de circulação, rotas seguras — com rastreabilidade e registro.
Nostalgia com lição prática
A reportagem da Transporte Moderno enxergou cedo que comunicação é produtividade. A diferença é que, naquele momento, produtividade era acelerar decisão por contato direto; hoje, produtividade é reduzir incerteza com dados e automatizar o que for repetitivo, mantendo a voz para o que é humano e crítico.
Se antes “rádio dirige frotas” era a síntese do avanço, em 2026 a frase se atualiza: plataformas dirigem exceções, dados dirigem rotinas — e o motorista segue no centro, agora conectado a um sistema que enxerga, registra e reage em tempo real.
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