Crédito mais barato do Move Brasil deve impactar emplacamentos a partir de março, diz presidente da Anfavea

Relatos de concessionárias indicam aumento superior a 30% na procura por financiamento desde o início do programa

Aline Feltrin

O impacto do programa Move Brasil, lançado pelo governo para estimular a renovação da frota de caminhões, deve começar a aparecer de forma mais clara nos emplacamentos a partir de março, afirmou nesta sexta-feira (6) o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Igor Calvet.

Segundo o executivo, embora o mercado de caminhões tenha registrado forte retração no início do ano, o programa já provocou um aumento significativo da procura por crédito nas concessionárias e nos bancos das montadoras, movimento que tende a se converter em vendas nos próximos meses.

“O mercado vinha se deteriorando ao longo de 2025, especialmente depois de maio, com juros muito elevados. O Move Brasil cria uma inflexão importante porque oferece linhas abaixo da taxa básica de juros”, disse Calvet, durante entrevista coletiva.

O setor enfrenta um ambiente ainda desafiador. A taxa Selic permanece em 15% ao ano, o que leva os juros finais para a compra de caminhões a patamares entre 18% e 22%, a depender da modalidade de financiamento, como CDC ou Finame. No Move Brasil, no entanto, os juros para caminhoneiros autônomos ficam em torno de 12,7% ao ano, abaixo da Selic, enquanto frotistas conseguem taxas próximas de 12%.

O programa conta com R$ 10 bilhões em recursos e cerca de R$ 1,3 bilhão já foi liberado no primeiro mês de operação. Para Calvet, o ritmo inicial ainda não reflete plenamente o potencial da iniciativa, por causa do próprio funcionamento do mercado de caminhões.

“Entre o faturamento e o emplacamento de um caminhão-trator, por exemplo, há um intervalo médio de seis a sete semanas. O programa começou em janeiro, então o efeito aparece com defasagem”, explicou. “Não há contradição entre o aumento da procura por crédito e a queda dos emplacamentos em janeiro.”

Aumento de 30% na procura

O presidente da Anfavea afirmou que os relatos vindos das concessionárias indicam crescimento expressivo da demanda. Em alguns casos, a procura por financiamento aumentou mais de 30% entre dezembro e janeiro. A expectativa é que esse movimento se traduza em maior volume de vendas e desembolsos ao longo do primeiro trimestre.

Os grandes frotistas tendem a concentrar uma parcela relevante dos recursos neste início, por terem estrutura financeira e planejamento de longo prazo, com financiamentos que podem chegar a 12 anos. Ainda assim, Calvet afirmou que também há operações envolvendo autônomos e pequenos empresários.

“Temos notícias tanto de grandes compras, que ajudam a dar volume ao mercado, quanto de pequenos transportadores entrando no programa”, disse.

O dirigente ressaltou que janeiro tradicionalmente é um mês mais fraco para as vendas de caminhões, fator que também contribuiu para os números negativos do início do ano. Além disso, o programa exigiu um período de adaptação operacional, tanto dos bancos quanto dos consumidores, para entendimento das regras e das linhas disponíveis.

Calvet avaliou ainda que o desempenho do Move Brasil pode ser reforçado caso se confirme um ciclo mais estrutural de queda da taxa de juros ao longo de 2026. “Há expectativa de início da redução da Selic a partir de março, o que seria uma boa notícia, mas é importante que esse movimento não seja pontual”, afirmou.

Programa permanente?

Questionado sobre a possibilidade de o programa se tornar permanente, o presidente da Anfavea disse que a entidade defende, historicamente, uma política contínua de renovação de frota. Segundo ele, há sinalizações do governo nesse sentido, mas ainda não há discussões formais em curso.

“O Move Brasil foi criado por medida provisória. Para se tornar perene, precisa ser transformado em lei. Isso não está sob controle da Anfavea, mas, se houver necessidade de defender a prorrogação, nós vamos apoiar”, disse. “Os resultados estão começando a aparecer e são importantes para o setor.”

Para a associação, o desempenho do programa nos próximos meses será determinante para embasar qualquer pleito de continuidade. “A largada foi dada. Agora precisamos acompanhar os números e comprovar a eficácia”, concluiu Calvet.

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