Anfir projeta 148 mil implementos em 2026 após ajuste do mercado e vê ano de acomodação

O comportamento do mercado deve seguir cauteloso ao longo do primeiro semestre, com possibilidade de melhora gradual a partir da segunda metade do ano, caso o ambiente macroeconômico e de crédito apresente sinais mais favoráveis

Aline Feltrin

Depois de um ano marcado por retração e forte ajuste, a indústria brasileira de implementos rodoviários entra em 2026 buscando estabilidade. A Associação Nacional dos Fabricantes de Implementos Rodoviários (Anfir) projeta produção de 148 mil unidades neste ano, sendo 70 mil reboques e semirreboques e 78 mil carrocerias sobre chassis, volumes praticamente em linha com o desempenho de 2025 e que reforçam a leitura de um ano de acomodação, com possibilidade de reação mais clara apenas no segundo semestre.

Em 2025, o setor produziu 149,2 mil implementos, queda de 6,3% na comparação com 2024. O resultado foi puxado principalmente pelo recuo de quase 20% nas vendas de reboques e semirreboques, que caíram de 88,6 mil para cerca de 71 mil unidades, reflexo direto do crédito caro e da dificuldade de financiamento de bens de capital. No sentido oposto, o segmento de carrocerias sobre chassis avançou 10,8%, alcançando 78,2 mil unidades, sustentado pelo varejo, pelo e-commerce e pela logística urbana.

“Ainda é muito cedo para dizer que o mercado não vai se comportar conforme as nossas projeções. O setor já passou por um ajuste importante e hoje opera em um patamar mais realista, compatível com o ambiente econômico”, afirma José Carlos Spricigo, presidente da Anfir.

Primeiro semestre de acomodação

A projeção para 2026 indica, portanto, manutenção do nível de atividade, após dois anos consecutivos de volatilidade. Segundo a entidade, o comportamento do mercado deve seguir cauteloso ao longo do primeiro semestre, com possibilidade de melhora gradual a partir da segunda metade do ano, caso o ambiente macroeconômico e de crédito apresente sinais mais favoráveis.

“O que vemos para 2026 é um primeiro semestre de acomodação. Depois do primeiro trimestre, teremos uma leitura mais clara do mercado e, a partir daí, condições de avaliar uma retomada mais consistente no segundo semestre”, diz Spricigo.

De acordo com ele, alguns fatores ajudam a sustentar essa expectativa. “O Programa Mover chegou agora, a tabela de frete tende a influenciar positivamente e a estabilidade de preços dos insumos ajuda no planejamento. As empresas estão ajustadas para um mercado menor, mas mais previsível”, afirma.

Crédito ainda limita decisões

Apesar dos pontos positivos no radar, o custo do financiamento segue como o principal entrave para uma retomada mais rápida. Com a Selic ainda em patamar elevado, a aquisição de implementos e a renovação de frota continuam sendo postergadas por transportadores e frotistas, especialmente entre pequenas e médias empresas.

“O crédito continua sendo o principal limitador. Com juros elevados e inadimplência alta, os spreads sobem e o financiamento de bens de capital fica mais caro, o que posterga decisões de investimento”, afirma o presidente da Anfir.

O parque industrial do setor opera atualmente com ociosidade próxima de 30%, nível semelhante ao registrado em 2025. Apesar disso, a entidade afirma não ter observado fechamento relevante de fábricas entre as associadas.

“O setor trabalha hoje com um nível de ociosidade parecido com o do ano passado. Não houve um movimento significativo de fechamento de fábricas, mas sim ajustes operacionais, como férias coletivas mais longas e adequação de turnos”, diz Spricigo.

Agro sustenta expectativa para a segunda metade do ano

Mesmo com o cenário ainda cauteloso, a Anfir vê vetores importantes de sustentação para 2026, especialmente ligados ao agronegócio. A previsão de safra agrícola recorde, acima de 350 milhões de toneladas, deve impulsionar principalmente os segmentos de graneleiros e basculantes, que devem concentrar cerca de 40% das vendas do setor ao longo do ano.

“A expectativa de safra recorde sustenta uma perspectiva mais positiva para graneleiros e basculantes, que devem responder por uma parcela relevante das vendas em 2026”, afirma Spricigo.

O mercado de tanques também aparece como aposta de recuperação, com acréscimo estimado de cerca de 6 mil unidades, enquanto os segmentos de baús de alumínio e lonados tendem a manter volumes estáveis, apoiados pelo varejo, pelo e-commerce e pelo consumo. O segmento de porta-contêineres também é visto como potencial surpresa positiva, puxado pelas importações.

Fenatran no radar do setor

No calendário do setor, a Fenatran, marcada para novembro, é vista como um possível catalisador de negócios no segundo semestre e também como um indutor de decisões de compra para 2027.

“A Fenatran continua sendo um evento importante para o setor. Tradicionalmente, ela impulsiona negócios e antecipa decisões de compra, especialmente quando o ambiente econômico começa a dar sinais de melhora”, afirma o presidente da Anfir.

Segundo ele, uma eventual queda mais consistente da Selic ao longo de 2026 pode funcionar como gatilho para uma retomada mais firme, desde que não haja deterioração adicional da inadimplência, fator que pressiona os spreads bancários.

Ano de transição, não de euforia

A avaliação predominante na entidade é que 2026 será um ano de transição, marcado mais por consolidação do que por crescimento acelerado. O ambiente político, a possibilidade de alguma expansão monetária e a normalização gradual do crédito podem ajudar, mas a palavra de ordem segue sendo prudência.

“Talvez 2026 não seja um ano excelente, mas pode ser um ano satisfatório. Depois de dois anos de forte ajuste, o setor busca estabilidade para voltar a crescer”, resume Spricigo.

Janeiro expõe continuidade do ajuste

O desempenho do primeiro mês de 2026 reforçou o clima de cautela no setor. Em janeiro, os emplacamentos de implementos rodoviários recuaram 23,6% na comparação com o mesmo mês de 2025, totalizando 8.760 unidades.

Os reboques e semirreboques lideraram a queda, com retração de 29,98%, enquanto as carrocerias sobre chassis recuaram 16,03%. Para a Anfir, o resultado reflete principalmente o crédito restrito, as férias coletivas mais longas e as dificuldades de fluxo de caixa enfrentadas pelas empresas — um início de ano fraco, mas coerente com o movimento de ajuste observado ao longo de 2025.

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