A chinesa Sany, uma das maiores fabricantes globais de máquinas pesadas, vai iniciar a montagem de caminhões no Brasil no segundo semestre de 2026, em uma planta no interior do estado de São Paulo, segundo afirmou Dieter Martin Lommer, diretor de vendas da Sany do Brasil, durante a gravação do videocast Transporte Moderno. A companhia projeta vender cerca de 100 unidades até dezembro do próximo ano.
Presente no país desde 2007, com atuação em linha amarela, guindastes, empilhadeiras e equipamentos para mineração, a empresa decidiu acelerar sua estratégia na divisão de caminhões, apostando principalmente em modelos pesados elétricos — segmento no qual lidera o mercado chinês há quatro anos consecutivos, segundo o executivo da Sany.
“O Brasil reúne características muito favoráveis: forte predominância do transporte rodoviário, matriz energética limpa e enorme potencial para eletrificação. É um mercado estratégico e vai se tornar nosso hub para a América Latina”, afirmou Lommer.
A operação industrial terá início no formato CKD (montagem de kits importados), modelo que, segundo a companhia, permite maior competitividade de preços, redução da exposição cambial e fortalecimento da estrutura de pós-venda. A localização exata da planta ainda não foi divulgada, mas o executivo afirma que o projeto está praticamente fechado.
“Optamos por São Paulo pela logística, infraestrutura e disponibilidade de mão de obra. Não foi uma decisão baseada em incentivos fiscais, mas em eficiência operacional”, disse.
Leia mais:
Nova regra do frete: entenda o cálculo do piso mínimo
Urubatan Helou, diretor-presidente da Braspress:“O transporte fracionado exige uma sofisticação de gestão que poucos conseguem sustentar”
Mercosul–UE: o que o acordo muda na estratégia das montadoras de caminhões no Brasil
Neste mês, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, visitou o Grupo Sany, na China, para tratar de “oportunidades concretas” de cooperação. A agenda incluiu o possível agendamento de reuniões institucionais com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin.
Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), também foi discutida a participação da multinacional chinesa em um evento voltado à indústria de óleo, gás e mineração, previsto para fevereiro, no Vale do Aço (MG).
Silveira foi recebido por Chen Jiayuan, membro do conselho de administração do Grupo Sany, e por Alex Xiao, presidente da Sany Brasil. De acordo com o ministério, as conversas envolvem a possibilidade de uma nova unidade industrial no país, voltada à produção, montagem e distribuição de equipamentos para os setores de construção pesada, mineração, óleo, gás, energia e armazenamento elétrico.
O Grupo Sany atua globalmente em áreas como máquinas pesadas, equipamentos para mineração, eletrificação industrial e sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS) — tecnologias alinhadas ao leilão de baterias previsto pelo governo brasileiro para os próximos meses.
Foco no pesado elétrico
A estreia da Sany no mercado brasileiro ocorre com uma linha de caminhões pesados, incluindo dois modelos a diesel e duas plataformas elétricas, além de planos para trazer, nos próximos meses, caminhões semileves elétricos voltados ao last mile.
A estratégia reflete o posicionamento global da companhia, que desde 2020 redirecionou seus investimentos para eletrificação. A Sany investe mais de US$ 1 bilhão por ano em pesquisa e desenvolvimento e mantém uma ampla base de engenharia na China.
Naquele mercado, cerca de metade dos caminhões pesados já opera com propulsão elétrica, impulsionada por políticas ambientais, menor custo operacional e rápida expansão da infraestrutura de recarga.
“No Brasil, o principal desafio não é a tecnologia, mas a infraestrutura. A disponibilidade de energia existe, mas ainda é desigual. Por isso, não basta vender o caminhão: precisamos ajudar a estruturar todo o ecossistema”, afirmou Lommer.
Nesse sentido, a Sany também atuará como fornecedora de carregadores ultrarrápidos, com equipamentos de até 800 kW, capazes de recarregar as baterias de 20% a 80% em cerca de 40 minutos. A empresa estuda ainda parcerias para implantação de eletropostos e uso de energia solar.
Rede e pós-venda no centro da estratégia
A Sany pretende encerrar 2026 com cerca de 20 pontos de venda no Brasil, chegando a 40 concessionárias até 2027. O pós-venda é tratado como um dos pilares centrais da operação, seguindo o modelo adotado na China.
“Pós-venda, tempo de atendimento e qualidade do produto são pilares do negócio da Sany. Não faz sentido crescer sem garantir estrutura adequada”, disse o executivo.
Segundo ele, os parceiros comerciais serão escolhidos com critérios rigorosos, especialmente em relação à capacidade financeira e operacional.
Nacionalização e financiamento
Embora o projeto inicial seja de montagem CKD, a empresa avalia, no médio prazo, ampliar o índice de nacionalização, o que abriria espaço para acesso ao Finame, linha de financiamento do BNDES considerada essencial para o mercado brasileiro de caminhões.
“O desafio é atingir 60% de nacionalização. Se o mercado responder e fizer sentido economicamente, isso estará no nosso radar”, afirmou Lommer.
A chegada da Sany ocorre em um momento de transformação do setor, com montadoras chinesas buscando espaço em um mercado historicamente dominado por fabricantes europeias. O executivo da Sany afirmou que a estratégia da companhia será combinar preço competitivo, tecnologia embarcada, rapidez no desenvolvimento de produto e forte presença no elétrico pesado, nicho ainda em consolidação no Brasil.
“Hoje, é mais fácil vender um caminhão pesado elétrico do que um diesel. No diesel, a barreira cultural é maior. Nosso produto é altamente competitivo e vamos apostar fortemente em demonstração e proximidade com o cliente”, concluiu Lommer.
Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedIn, Instagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno



