O consórcio de veículos e equipamentos pesados vem ampliando seu espaço no planejamento financeiro de empresas, transportadores e produtores rurais no Brasil. Dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC) indicam crescimento do volume de créditos comercializados, do valor disponibilizado e das contemplações ao longo de 2025, mesmo diante da retração no número de adesões, movimento que reforça o caráter estratégico da modalidade em um ambiente de juros elevados e maior seletividade na concessão de crédito.
Tradicionalmente associado a aquisições programadas, o consórcio passou a ser utilizado de forma mais estruturada por agentes que buscam previsibilidade de caixa e disciplina financeira para investimentos de alto valor, como caminhões, máquinas agrícolas e equipamentos de grande porte.
Sem incidência de juros, o modelo vem sendo incorporado ao planejamento de médio e longo prazos, sobretudo em setores expostos à volatilidade econômica e à sazonalidade da atividade.
Leia mais:
Nova regra do frete: entenda o cálculo do piso mínimo
Mercosul–UE: o que o acordo muda na estratégia das montadoras de caminhões no Brasil
Conheça as companhias aéreas que lideraram o transporte de cargas no Brasil em 2025
Planejamento financeiro orienta decisões de investimento
Segundo Marcelo Lucindo, CEO da Evoy Administradora de Consórcios, o consórcio de pesados deixou de ser apenas uma alternativa de compra para se tornar um instrumento de organização financeira. “O consórcio de pesados tem sido utilizado de forma estratégica por produtores rurais e empresários que precisam planejar a expansão ou a modernização de suas operações”, afirma.
De acordo com o executivo, a previsibilidade das parcelas e o controle do fluxo de caixa são fatores decisivos para a adoção da modalidade. “O consórcio oferece uma forma estruturada de investimento, permitindo que empresas e produtores se organizem financeiramente antes da aquisição do bem”, acrescenta.
Agronegócio sustenta demanda
A ABAC destaca que o segmento de consórcios de pesados apresentou evolução consistente em 2025, acompanhando a demanda por máquinas agrícolas, caminhões e equipamentos ligados à produção e à logística. O movimento reflete, em especial, a necessidade de renovação de ativos no agronegócio, setor que opera com ciclos produtivos bem definidos e elevada exposição a custos financeiros.
Nesse contexto, a possibilidade de diluir o investimento ao longo do tempo, com parcelas previamente definidas, favorece a organização financeira de atividades que dependem de planejamento antecipado para sustentar ganhos de produtividade e eficiência operacional.
Caminhões: retração operacional, fortalecimento financeiro
Em 2025, menos pessoas decidiram entrar em consórcios para compra de caminhões. Até novembro, o número de novas adesões caiu 17,3% e, no fechamento do ano, essa retração ficou em 15,0%. Isso mostra um comportamento mais cauteloso de transportadores e empresas, que evitaram assumir novos compromissos financeiros em um cenário de juros elevados e incerteza econômica.
Apesar disso, o volume total de dinheiro movimentado pelos consórcios cresceu. Até novembro, os créditos comercializados avançaram 14,0%, e no fechamento de dezembro a alta foi de 14,3%. Ou seja, mesmo com menos participantes, os valores envolvidos ficaram maiores, porque os caminhões são bens caros e as cartas de crédito continuaram elevadas. Em paralelo, o volume de créditos disponibilizados saltou 38,0%, indicando maior capacidade do sistema de atender quem já estava no consórcio.
Outro dado importante é que mais pessoas foram contempladas — aquelas que efetivamente receberam o crédito para comprar o caminhão. As contemplações cresceram 6,0% até novembro e 5,8% no acumulado do ano, sinalizando que o consórcio seguiu sendo usado para renovação e ampliação gradual de frota, mesmo com a redução na entrada de novos participantes.
Já no fim do ano, houve um ajuste no perfil das compras. Em dezembro, o tíquete médio caiu 9,3%, o que sugere que muitos compradores passaram a optar por caminhões de menor valor ou adotaram estratégias mais conservadoras de investimento, priorizando a preservação do caixa em vez de grandes expansões.
Alternativa ao crédito tradicional em cenário restritivo
Para Paulo Roberto Rossi, presidente executivo da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC), o comportamento do mercado está diretamente ligado ao valor das cartas de crédito.
“Quando olhamos para crédito comercializado, ele está muito vinculado ao valor do crédito. À medida que você tem um valor de crédito maior, você também tem um volume maior de créditos comercializados. É uma consequência direta”, afirma.
Segundo Rossi, a retração de 15% nas adesões em 2025, na comparação com 2024, veio acompanhada da queda do tíquete médio, de R$ 248 mil para R$ 225 mil, recuo de 9,3%. “Se tem aumento do tíquete médio, o volume de créditos comercializados aumenta. Se tem queda, ele também reflete diretamente”, explica.
Mesmo assim, o executivo avalia que o consórcio manteve relevância na renovação de frotas, ainda que o cenário seja desafiador. “Não podemos desconsiderar o impacto da incerteza no agronegócio e da desaceleração da atividade econômica, algo que também foi observado pela ANFAVEA”, afirma.
De acordo com ele, o elevado endividamento dos transportadores limita a capacidade de planejamento e a entrada em novas cotas, mas reforça o papel do consórcio como ferramenta de médio prazo.
Estabilidade para 2026
Questionado sobre o caráter anticíclico da modalidade, Rossi é direto: “Sim”. Para o presidente executivo da ABAC, o consórcio funciona como alternativa em períodos de restrição de crédito, como ocorreu em 2022 e 2023, quando a baixa aprovação de financiamentos impulsionou fortemente a venda de cotas.
Mesmo com a expectativa de novas linhas de crédito, como o Move Brasil, o executivo avalia que o consórcio seguirá competitivo. “Se compararmos taxas finais de financiamento na casa de 12%, 15% ou até 18% ao ano, o consórcio, no final das contas, ainda tende a ser um produto mais barato, a depender de outros fatores”, afirma.
A ABAC trabalha com a perspectiva de estabilidade do mercado de consórcios de pesados em 2026, após a retração observada em 2025. “Apesar da queda de 15% nas adesões, apostamos em estabilidade ao final de 2026. Claro que muitos fatores podem alterar esse cenário, mas o consórcio continua sendo uma ferramenta relevante de planejamento”, conclui Rossi.
Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedIn, Instagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno



