A Anfavea, associação que representa as montadoras instaladas no país, afirmou, em nota enviada à imprensa nesta segunda-feira (19), que o incentivo ao uso de kits de veículos desmontados — nos regimes CKD e SKD — em alto volume pode provocar forte impacto negativo na indústria automotiva brasileira. Segundo a entidade, a substituição da produção completa no Brasil pela simples montagem de conjuntos importados pode eliminar até 69 mil empregos diretos, o equivalente a 75% da força de trabalho atual do setor, além de afetar cerca de 227 mil postos indiretos ao longo da cadeia.
CKD (Completely Knocked Down) e SKD (Semi Knocked Down) são modelos de produção nos quais os veículos chegam do exterior totalmente desmontados ou parcialmente desmontados, respectivamente, para serem apenas montados no país. Na prática, esse formato reduz a necessidade de processos industriais locais, como estampagem, soldagem, pintura, desenvolvimento de engenharia e compras de autopeças nacionais.
De acordo com o estudo citado pela Anfavea, as perdas econômicas associadas à ampliação desse modelo podem chegar a R$ 97 bilhões ao longo da cadeia automotiva, com impacto direto sobre fabricantes de autopeças. A entidade estima ainda uma redução de aproximadamente R$ 26 bilhões na arrecadação de tributos em apenas um ano e uma queda de R$ 42 bilhões nas exportações de veículos, com efeitos negativos sobre a balança comercial.
O alerta ocorre após seis meses de vigência do regime que instituiu cotas com Imposto de Importação zerado para kits de veículos elétricos e híbridos desmontados. Na nota, a Anfavea defende o encerramento do benefício em 31 de janeiro, conforme sinalização prévia dos órgãos federais de comércio exterior, e afirma que uma eventual prorrogação representaria um risco estrutural para a indústria nacional.
Para o presidente da entidade, Igor Calvet, embora as montadoras consigam se adaptar a um modelo produtivo simplificado, os prejuízos recaem sobre toda a cadeia. “As empresas conseguiriam se adaptar adotando um modelo simplificado de produção, mas o problema seria relevante para a cadeia como um todo: perderiam as empresas fornecedoras, os trabalhadores, a engenharia nacional, a academia e o poder público. Ou seja, a sociedade brasileira inteira”, afirma.
Segundo o estudo, a ampliação da entrada de veículos eletrificados importados sem agregação de valor local tende a pressionar fabricantes já instalados no país, reduzir investimentos em desenvolvimento tecnológico e enfraquecer a competitividade industrial brasileira, especialmente em um contexto de transição tecnológica e de reindustrialização.
Calvet afirma ainda que o problema não está no uso pontual dos modelos CKD e SKD, mas na manutenção de incentivos sem contrapartidas industriais. “SKD e CKD não são processos prejudiciais em si. Muitas montadoras iniciaram suas operações no Brasil por esses modelos, recolhendo os devidos impostos e estruturando, a partir disso, sua produção local. O problema é manter incentivos para a simples montagem em alto volume, sem exigência de aporte de valor nacional”, diz.
Na nota, o presidente da Anfavea também afirma que a indústria instalada no país está preparada para competir, desde que em condições equitativas. “A Anfavea e suas associadas não temem a concorrência. O setor recebeu, ao longo das últimas décadas, diversas marcas internacionais dispostas a investir e competir no Brasil. O que se busca é um ambiente competitivo justo, com regras iguais para todos.”
Nos últimos anos, a indústria automotiva brasileira anunciou investimentos bilionários em pesquisa, desenvolvimento e inovação, no âmbito de programas como Inovar-Auto, Rota 2030 e, mais recentemente, o Mover. Segundo a Anfavea, apenas no ciclo atual, os aportes somam mais de R$ 190 bilhões, considerando fabricantes de veículos e de autopeças, um recorde histórico para o setor.
“Prolongar incentivos sob a justificativa de atrair investimentos pode, na prática, estimular a desindustrialização e deteriorar as condições de emprego no país. É fundamental valorizar quem investe de forma plena no Brasil, inclusive as novas empresas que chegam com projetos industriais completos”, conclui Calvet.
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