O desempenho do segmento de caminhões foi um dos principais fatores de frustração para a indústria automotiva em 2025, segundo a Anfavea.
O avanço ficou aquém das expectativas traçadas no início do ano passado, quando se projetava um cenário macroeconômico mais favorável, com juros em trajetória de queda e expansão da produção entre 7% e 8%.
O desempenho da produção de caminhões pesados foi a âncora negativa de 2025, com retração de 12,1%, 152 mil unidades produzidas. Já no comércio exterior, o volume exportado de caminhões somou 27 mil unidades em 2025. No computo geral da indústria, registrou-se crescimento de 3,5% na produção total, com produção total passando de 2,554 milhões de unidades em 2024 para 2,644 milhões em 2025.

“Esperávamos mais de 2025, mas não podemos dizer que foi um ano ruim. Ainda assim, tivemos um resultado positivo na produção”, afirmou Igor Calvet, presidente da Anfavea, durante entrevista coletiva para apresentação dos resultados e projeções do setor.
Juros elevados e impacto no emprego do setor
O ambiente financeiro foi decisivo para o desempenho negativo dos caminhões em 2025. Com taxas de financiamento entre 18% e 22%, o segmento sofreu uma desaceleração significativa, especialmente nos modelos de maior valor agregado.
Como consequência, a produção de caminhões retraiu e perdeu mais de 740 postos de trabalho ao longo do ano. “A demanda existia, mas a compra não era efetuada por conta das taxas de juros muito altas e da defasagem do frete”, avaliou o presidente da Anfavea.
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Move Brasil busca destravar o mercado de caminhões
Na avaliação da Anfavea, o programa Move Brasil representa uma inflexão importante para o setor e promove um sopro de otimismo entre os frotistas e caminhoneiros autônomos. Com recursos de R$ 10 bilhões, linhas de crédito com prazo de até 60 meses, limite de R$ 50 milhões por beneficiário e taxas entre 11% e 13% ao ano, sem cobrança de IOF, o programa é direcionado tanto a autônomos quanto a frotistas e vale até maio de 2027.
“Com o Move Brasil, o governo fez um movimento correto para o mercado e para a economia em geral. Foi uma medida desfibriladora”, afirmou Calvet. Segundo ele, o programa tem potencial para destravar compras represadas, especialmente no segmento de pesados, que responde por cerca de metade do mercado de caminhões.
“O programa não se restringe a nenhum segmento. Todos serão impactados, mas o de pesados deve ser o mais beneficiado. Podemos ter uma antecipação das compras”, disse. O presidente da Anfavea ressaltou, contudo, que ainda é cedo para medir o impacto real da iniciativa. “O programa começou de fato há menos de 15 dias, e ainda não temos uma avaliação de volume.”
Expectativas para 2026
Para 2026, a Anfavea projeta um cenário de relativa estabilidade no segmento de caminhões e ônibus. A expectativa é de crescimento de 1,4% na produção e retração de 1,1% nas exportações. “O Move Brasil deve refrear a queda observada em 2025, e os três primeiros meses do programa vão indicar se teremos crescimento significativo”, afirmou o presidente da entidade.
A Anfavea mantém a prudência ao avaliar 2026, já que qualquer oscilação na taxa de juros não tem impacto imediato, o que joga para o segundo semestre qualquer refresco na pressão direta e indireta que os juros mantêm na produção.
Além disso, o setor agrícola, um dos principais dínamos da produção de caminhões no país, ainda deve enfrentar em 2026 os efeitos das intempéries climáticas e da volatilidade das commodities. Soma-se a esse quadro de incerteza a implementação da reforma tributária, prevista para iniciar este ano, mas que segue gerando apreensão no mercado diante da falta de clareza sobre o nível da carga tributária que deverá impactar os custos de produção.
Nesse contexto, a projeção é de que a produção de caminhões caminhe de lado em 2026 — o que, considerando os resultados de 2025, pode ser interpretado como um desfecho positivo.
Mesmo a realização de um dos principais eventos do setor na América do Sul, a Fenatran, em novembro, só deve ajudar a performance do segmento de caminhões em 2027. “A Fenatran 2024 foi excepcional e o primeiro trimestre de 2025 foi o melhor. Depois disso, o mercado começou a cair. Para este ano projetamos o mesmo, mas com impacto mais claro em 2027”, disse Calvet.
Do ponto de vista macroeconômico, a parceria com o Itaú BBA aponta PIB de 1,8%, desemprego em 5,7%, Selic em torno de 12,25%, crédito crescendo 5,8% e IPCA de 4%. “É um ano em que produção e mercado crescem, mas com otimismo contido. Há dúvidas e instabilidades, questões geopolíticas, definições da reforma tributária, o êxito do Move Brasil e o momento efetivo de queda dos juros. Vamos precisar revisar trimestralmente as expectativas”, concluiu Calvet.
Cotas de SKD e CKD preocupam fabricantes
Outro ponto sensível para o setor de maneira geral é a política de cotas de importação para kits SKD e CKD, atualmente fixada em US$ 436 milhões. Ainda incipiente no segmento de caminhões, a modalidade de produção já é utilizada por montadoras como a Foton e a Sunny.
A possibilidade de prorrogação dessas cotas após janeiro de 2026 preocupa a Anfavea, que defende o encerramento definitivo do regime.
“A extensão poderia provocar uma perda de R$ 103 bilhões na economia, colocar em risco 69 mil empregos nas montadoras e 227 mil no parque de fornecedores, além de reduzir em R$ 42 bilhões as exportações”, alertou Calvet. Segundo ele, o risco é o empobrecimento da base industrial nacional, com um processo produtivo cada vez menos denso.
“Não somos contra nenhum modelo de produção específico, mas sou contrário a um modelo menos sofisticado, em alto volume e com redução de imposto. Isso não pode ser banalizado”, concluiu.
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