Emplacamentos de caminhões caem em 2025 e Fenabrave projeta recuperação gradual em 2026

Alta dos juros, crédito restrito e impacto do agronegócio puxaram retração de 8,7% nos licenciamentos, enquanto o programa Move Brasil sustenta a expectativa de crescimento moderado no próximo ano

Valeria Bursztein

O mercado brasileiro de caminhões encerrou 2025 sob forte pressão do ambiente macroeconômico, refletindo a combinação de juros elevados, crédito restrito e cautela dos embarcadores. Dados consolidados divulgados pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) indicam que os licenciamentos do segmento fecharam o ano com queda de cerca de 8,7% na comparação com 2024, somando pouco mais de 110 mil unidades, após sucessivas revisões para baixo das projeções ao longo do ano.

O desempenho reflete um ambiente macroeconômico adverso, marcado por juros elevados, restrição de crédito e maior seletividade dos investimentos, como analisado pela economista Tereza Fernandes. Veja matéria no portal Transporte Moderno.

Embora tenham sido observadas reações pontuais em determinados meses, o balanço anual confirma um cenário desafiador para os veículos pesados. De acordo com o diretor executivo da Fenabrave, Marcelo Ciardi Franciulli, o desempenho foi diretamente impactado pelas dificuldades enfrentadas pelo agronegócio em 2025. “Foi um ano bastante difícil para o agro e a consequência foi um impacto importante nas vendas, especialmente de extrapesados, que representam quase 50% do segmento. Esse segmento teve uma queda média de 20% sobre o ano anterior”, afirma.

O comportamento do mercado foi heterogêneo dentro do próprio segmento. Enquanto os caminhões extrapesados sofreram retração acentuada, os modelos médios e semipesados apresentaram crescimento de 31% e 4%, respectivamente, refletindo demandas mais específicas e menor dependência de operações fortemente alavancadas. Ainda assim, o desempenho mensal mostrou volatilidade. A comparação entre novembro de 2025 e dezembro de 2024 indica crescimento de 11,1%, mas, quando analisado o resultado de dezembro de 2025 frente ao mesmo mês do ano anterior, o saldo é negativo, com retração de 11,8%.

O enfraquecimento do mercado de caminhões também afetou diretamente os implementos rodoviários. Em 2025, o segmento registrou queda de 19,9% nos licenciamentos, totalizando 71.030 unidades. Segundo a Fenabrave, muitos frotistas priorizaram a renovação dos cavalos mecânicos, impulsionados pela adoção da tecnologia Euro 6, adiando investimentos em implementos.

Mercado Automotivo

Apesar do desempenho negativo dos caminhões, o setor automotivo como um todo encerrou 2025 em crescimento. Foram 5.124.544 unidades emplacadas no ano, alta de 8,02% em relação a 2024, superando a projeção inicial da entidade, que estimava avanço de 7,2%. O resultado foi fortemente influenciado pelo desempenho das motocicletas, que bateram recorde histórico, com crescimento de 17,1% e 2.197.308 unidades licenciadas. Segundo Franciulli, o segmento mudou de patamar, impulsionado pelo uso profissional em atividades de entrega e transporte individual, com forte participação dos consórcios, responsáveis por cerca de 30% das vendas.

No segmento de autos e comerciais leves, o crescimento foi mais moderado, de 2,6%, com 2.249.462 emplacamentos em 2025. A Fenabrave destaca que a paralisação da fábrica da Toyota afetou os resultados, enquanto o programa Carro Sustentável contribuiu positivamente para as vendas. Ainda assim, a taxa de juros elevada e a implementação parcial do marco regulatório das garantias limitaram uma recuperação mais robusta.

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Os ônibus apresentaram desempenho positivo, com alta de 4,2% no acumulado do ano e 28.844 unidades licenciadas. O crescimento foi sustentado por programas públicos, compras para transporte escolar e pela retomada gradual do transporte coletivo urbano. Em alguns recortes do ano, os emplacamentos mais que dobraram na comparação anual, refletindo a concentração de entregas e faturamentos.

O segmento de eletrificados manteve trajetória de expansão, com 294,8 mil veículos elétricos e híbridos emplacados em 2025, crescimento de 58,6% sobre 2024. O avanço segue concentrado em autos e comerciais leves, enquanto a presença dessa tecnologia nos pesados ainda é incipiente.

Já as máquinas agrícolas mantiveram níveis de atividade próximos aos do ano anterior, acompanhando os ciclos do agronegócio e as condições de financiamento rural, com perspectivas relativamente estáveis para 2026.

Perspectivas para 2026

Para 2026, a Fenabrave projeta crescimento mais moderado do mercado automotivo, estimado em 6,1%, com o total de emplacamentos passando de 4,96 milhões para 5,26 milhões de unidades. No caso dos caminhões, a expectativa é de recuperação gradual, com alta projetada de 3,5% e volume estimado em 114,8 mil unidades.

Segundo o primeiro vice-presidente da Fenabrave, Sergio Dante Zonta, o segmento parte de uma base historicamente baixa. “Em 2012 foram emplacadas mais de 170 mil unidades. No ano passado tivemos apenas 110 mil. O governo liberou mais de R$ 10 bilhões no programa Move Brasil, via BNDES Finame, com juros entre 13% e 14% ao ano, o que é uma situação muito positiva”, afirma. Para o executivo, os problemas enfrentados em 2025 na orientação de compra de extrapesados, que levaram a uma queda de 22% nas vendas, tendem a ser parcialmente corrigidos com a oferta de crédito direcionado.

Zonta ressalta, no entanto, que o ambiente de financiamento segue desafiador. “Qualquer financiamento hoje está em média 25% ao ano, o que provoca a postergação da compra, fato comprovado em 2025”, diz. A expectativa da entidade é que o Move Brasil funcione como indutor de investimentos, especialmente no segmento de extrapesados, além da possível inclusão de seminovos no programa.

No conjunto, a Fenabrave avalia que 2026 deve ser um ano de ajuste para o setor automotivo, com recuperação gradual dos veículos pesados, crescimento mais seletivo e decisões de investimento fortemente condicionadas ao custo do crédito, à previsibilidade econômica e à evolução da taxa Selic.

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