Crescimento mais fraco, crédito restrito e risco fiscal redesenham o cenário automotivo para 2026

Análise da economista Tereza Fernandes indica PIB abaixo de 1,5%, juros elevados e inadimplência alta como fatores-chave para as decisões de investimento em transporte e renovação de frotas no próximo ano

Valeria Bursztein

A avaliação do cenário macroeconômico de 2025 e as perspectivas para 2026 indicam um ambiente de crescimento mais restrito e de maior seletividade nos investimentos, com impactos diretos sobre o setor automotivo e, por consequência, sobre a cadeia de transporte e logística.

A análise é de Tereza Fernandes, economista e consultora da TF Consultoria, que acompanhou ao longo do ano a evolução dos principais indicadores econômicos e compartilhou suas impressões durante coletiva de imprensa da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), sobre resultados do setor em 2025 e projeções para 2026.

Segundo a economista, o Produto Interno Bruto (PIB) de 2025 deve encerrar o ano entre 2% e 2,2%, resultado ligeiramente abaixo das projeções iniciais do mercado, que chegaram a apontar crescimento de até 2,5%.

O desempenho reflete a contribuição concentrada em quatro vetores: agronegócio, indústria extrativa — especialmente minério de ferro e petróleo —, construção civil e setor de serviços. A indústria de transformação, por sua vez, deve fechar o ano próxima da estabilidade ou com leve retração, sinalizando um limite para a expansão do consumo e dos investimentos produtivos.

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No campo inflacionário, o IPCA fechou 2025 em 4,3%, dado oficial divulgado no início de janeiro, ficando abaixo do teto da meta, mas ainda distante do centro perseguido pelo Banco Central. O câmbio seguiu dentro das expectativas da consultoria, encerrando o ano em torno de R$ 5,48, refletindo um ambiente externo volátil e pressões domésticas persistentes.

A política monetária teve papel central na dinâmica econômica do ano. A taxa básica de juros fechou 2025 em 15%, patamar que contribuiu diretamente para a retração da oferta de crédito e para o aumento da inadimplência, especialmente em segmentos dependentes de financiamento, como o automotivo.

Para Fernandes, o quadro fiscal segue como um dos principais focos de preocupação. A dívida bruta do governo avançou mais do que o esperado e, em novembro, já atingia 79,02% do PIB, aproximando-se do patamar de 80%. Além disso, a meta orçamentária de déficit — fixada em até 0,25% do PIB — tende a não ser cumprida, o que adiciona incerteza à condução da política econômica.

O que o futuro reserva

Ao olhar para 2026, o cenário permanece marcado por riscos externos e internos. No ambiente internacional, persistem as incertezas relacionadas a tarifas de importação, com movimentos recentes de taxação anunciados por países como China e México, inicialmente sobre carnes, mas com potencial de se espalhar para outros mercados.

O acordo entre Mercosul e União Europeia pode gerar oportunidades, mas seus efeitos práticos devem ser sentidos apenas a partir de 2027. Soma-se a isso a ausência de soluções regionais para conflitos geopolíticos, que continuam a provocar volatilidade nos mercados e nas moedas.

No Brasil, a expectativa da TF Consultoria é de que a taxa de juros não seja reduzida já no início de 2026. Caso haja algum corte, ele deve ocorrer apenas a partir de março e de forma gradual. Nesse contexto, a projeção de crescimento econômico para o próximo ano fica entre 1,3% e 1,5%, mesmo sendo um ano eleitoral, tradicionalmente marcado por aumento de gastos públicos. A contribuição para o PIB deve vir, novamente, da indústria extrativa mineral e do setor de serviços, enquanto a construção civil tende a desacelerar.

A inflação em 2026 deve permanecer em torno de 4,3%, com riscos adicionais associados à implementação da reforma tributária. Embora a transição não ocorra de forma imediata, a economista alerta para um viés inflacionário, especialmente no setor de serviços, além da possibilidade de desvalorização cambial mais próxima do período eleitoral. A preocupação com o controle dos gastos públicos, portanto, se intensifica.

Três variáveis-chave

Para o setor automotivo, Fernandes destaca três variáveis-chave que devem orientar as decisões estratégicas ao longo de 2026: crédito, inadimplência e situação fiscal. Os dados mais recentes do Banco Central mostram uma desaceleração expressiva na expansão do crédito. Em períodos anteriores, o volume de crédito chegou a crescer mais de 31%, mas o último dado disponível, de outubro, aponta expansão de apenas 0,3%, com risco concreto de o ano fechar próximo da estabilidade ou até com leve retração.

A inadimplência também segue elevada. No segmento de automóveis, os dados indicam taxa de 5,4%, patamar considerado alto e que tende a restringir ainda mais as concessões de financiamento. Já a relação dívida/PIB, que ganhou tração no segundo semestre de 2025, encerrou novembro em 79,02%, reforçando o alerta fiscal.

Na avaliação da economista, o acompanhamento atento dessas três variáveis será determinante para entender o comportamento do mercado automotivo em 2026 e seus desdobramentos sobre o transporte de cargas, a renovação de frotas e os investimentos logísticos. O ambiente aponta para crescimento mais moderado, maior seletividade no crédito e decisões de investimento cada vez mais condicionadas à previsibilidade econômica.

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