Transporte Moderno – Qual é a sua avaliação sobre a decisão da FedEx de encerrar as operações de transporte doméstico no Brasil?
Pedro Moreira – Do ponto de vista institucional da Abralog, essa decisão deve ser analisada com equilíbrio e respeito à trajetória da FedEx, uma empresa global, associada à entidade e reconhecida por elevados padrões de excelência operacional. O encerramento das operações domésticas no Brasil não pode ser interpretado de forma isolada, mas inserido em um contexto mais amplo de revisão estratégica global, alocação de capital e priorização de mercados ou segmentos com maior previsibilidade de retorno.
Transporte Moderno – Quais fatores estruturais do mercado brasileiro ajudam a explicar esse movimento?
Pedro Moreira – O Brasil apresenta desafios estruturais relevantes para operações de transporte doméstico, especialmente no segmento expresso e fracionado. A elevada complexidade tributária, os custos logísticos acima da média internacional, a infraestrutura ainda desigual, a insegurança regulatória e as margens historicamente pressionadas tornam o ambiente operacional bastante desafiador, sobretudo para modelos globais mais padronizados.
Transporte Moderno – Por que o mercado doméstico de cargas fracionadas é considerado um dos mais complexos do mundo?
Pedro Moreira – Estamos falando de um país continental, com grande dispersão geográfica, diferenças regionais significativas de infraestrutura, restrições urbanas, altos índices de roubo de cargas e uma legislação fiscal e trabalhista fragmentada entre estados e municípios.
Além disso, o nível de exigência dos clientes evoluiu de forma acelerada, impulsionado pelo crescimento do e-commerce, o que pressiona prazos, custos e níveis de serviço. Isso exige alto grau de capilaridade, flexibilidade operacional e investimentos contínuos em tecnologia, gestão de risco e pessoas.
Transporte Moderno – Que impactos a saída da FedEx pode gerar na competitividade do segmento de entregas expressas e do transporte doméstico?
Pedro Moreira – No curto prazo, tende a ocorrer uma redistribuição natural de volumes entre operadores já consolidados no mercado doméstico, especialmente aqueles com forte capilaridade nacional. Para os grandes players, surge uma oportunidade de absorção de demanda, acompanhada de maior responsabilidade operacional. Para pequenos e médios operadores, podem surgir oportunidades regionais e nichadas, sobretudo para empresas com forte especialização local. Ao mesmo tempo, o movimento reforça a necessidade de profissionalização, escala colaborativa e adoção de tecnologia, sob pena de maior pressão competitiva e consolidação do mercado.
Transporte Moderno – Como essa mudança pode afetar embarcadores e empresas de e-commerce que utilizavam a FedEx em operações internas?
Pedro Moreira – O impacto tende a ser mais de transição do que estrutural. O mercado brasileiro conta com operadores capacitados para absorver essa demanda. Ainda assim, no curto prazo, podem ocorrer ajustes contratuais, redesenho de malhas logísticas e pressões pontuais de custo, especialmente em operações mais sensíveis a prazo ou com maior complexidade operacional.
Transporte Moderno – Quais orientações a Abralog dá às empresas associadas que tinham contratos estruturados com a FedEx?
Pedro Moreira – A principal recomendação é atuar com planejamento e gestão ativa da transição. É fundamental revisar contratos, mapear riscos operacionais, avaliar alternativas logísticas e, sempre que possível, trabalhar com múltiplos operadores para reduzir dependência. Também orientamos o uso intensivo de dados, indicadores de desempenho e simulações de cenários, além da escolha de parceiros com solidez financeira, capilaridade e histórico comprovado de compliance e qualidade de serviço. A Abralog permanece à disposição como fórum de troca de experiências e boas práticas.
Transporte Moderno – Essa decisão evidencia desafios mais amplos para a sustentabilidade econômica dos modelos de entrega expressa no Brasil?
Pedro Moreira – Sem dúvida. Os modelos de entrega expressa operam no Brasil sob forte pressão de custos, alta volatilidade e margens estreitas. Para garantir sustentabilidade, o setor precisa avançar em produtividade, digitalização, automação e colaboração entre os elos da cadeia, além do uso inteligente de tecnologia e dados.
Transporte Moderno – O que o setor logístico pode fazer para reforçar sua competitividade frente a players globais?
Pedro Moreira – É fundamental fortalecer a governança, a gestão de riscos e a qualificação da mão de obra. O Brasil tem operadores altamente competentes, mas precisa transformar essa competência em vantagem sistêmica e escalável, capaz de competir com players globais e, ao mesmo tempo, atrair novos investimentos.
Transporte Moderno – Quais avanços regulatórios e de política pública são necessários para tornar o Brasil mais atrativo a empresas internacionais no mercado doméstico?
Pedro Moreira – Do ponto de vista da Abralog, três frentes são essenciais: simplificação tributária, melhoria da infraestrutura logística e maior segurança jurídica e regulatória. A reforma tributária é um passo importante, mas precisa vir acompanhada de regulamentações claras e estáveis. Além disso, investimentos contínuos em rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e logística urbana, assim como políticas públicas voltadas à segurança no transporte de cargas, são fundamentais para criar um ambiente mais previsível, eficiente e atrativo para investimentos.
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