PNL 2050 pode redefinir a logística brasileira, mas precisa virar política de Estado, analisam especialistas

Plano Nacional de Logística aposta em visão de longo prazo, escuta do setor produtivo e integração multimodal, mas sucesso depende de blindagem contra descontinuidades políticas

Aline Feltrin

O Plano Nacional de Logística 2050 (PNL 2050), em fase de consolidação pelo governo federal, reúne condições técnicas e institucionais inéditas para orientar os investimentos em infraestrutura de transportes no Brasil nas próximas décadas. A conclusão é dos especialistas ouvidos pelo portal Transporte Moderno nesta semana. No entanto, o sucesso do plano dependerá essencialmente de sua capacidade de se consolidar como uma política de Estado, e não como mais uma iniciativa restrita a um ciclo de governo.

“O maior aprendizado dos últimos 25 anos é que planejamento logístico não pode estar atrelado a mandatos”, afirma Paulo Resende, professor de logística e transporte da Fundação Dom Cabral e diretor do Núcleo de Infraestrutura, Supply Chain e Logística da instituição. “Se o PNL 2050 não se transformar em um plano de Estado, ele corre o risco de repetir a trajetória dos planos anteriores, que foram descontinuados a cada mudança de governo.”

Desde os anos 1990, o país acumulou pelo menos cinco grandes iniciativas de planejamento em infraestrutura e logística, como o Brasil em Ação, o PAC, o Plano de Integração Logística e o PNL 2035. Embora esses programas tenham ajudado a consolidar diagnósticos e a listar projetos estruturantes — como ferrovias, rodovias e corredores de exportação —, poucos conseguiram avançar de forma consistente na execução.

Segundo Resende, o PNL 2050 incorpora aprendizados relevantes desse histórico. Um dos principais diferenciais é a visão de longo prazo, com horizonte até 2050, o que confere maior previsibilidade para investidores, especialmente em projetos intensivos em capital, como ferrovias e hidrovias. “Esse tipo de infraestrutura exige planejamento de décadas. O plano coloca o Brasil no radar de investidores globais ao sinalizar claramente quais modais e corredores serão priorizados”, diz.

Outro avanço destacado pelo especialista é a escuta estruturada do setor produtivo. Diferentemente de planos anteriores, o PNL 2050 considerou a demanda logística de cerca de 40 setores econômicos, ouvindo embarcadores, operadores e representantes de diferentes cadeias produtivas. “Isso dá mais realismo ao planejamento, porque parte de quem usa efetivamente a infraestrutura”, afirma.

A integração entre modais também é central no desenho do plano. O PNL 2050 busca equilibrar a matriz de transportes, hoje fortemente concentrada no modal rodoviário, ao fortalecer ferrovias, hidrovias, cabotagem e portos, organizados em corredores logísticos integrados. A proposta é reduzir custos, aumentar eficiência e mitigar gargalos históricos no escoamento da produção e no atendimento ao mercado interno.

Para Olivier Girard, sócio-diretor da consultoria Macroinfra, a principal inovação do PNL 2050 está na hierarquização dos projetos. “Os planos anteriores eram grandes listas de obras, sem uma definição clara de prioridade. Agora, o plano tenta responder à pergunta fundamental: o que fazer primeiro, considerando a escassez de recursos?”, afirma.

Segundo Girard, o uso de dados mais sofisticados, baseados em custos logísticos reais — e não apenas em estimativas teóricas — torna o planejamento mais aderente à tomada de decisão das empresas. “Hoje o embarcador escolhe rotas e modais com base em custos efetivos, monitorados por sistemas de controle. O plano passa a dialogar melhor com essa realidade”, diz.

Guardião do PNL

Apesar dos avanços, Girard aponta desafios relevantes. Um deles é a fragmentação de dados, especialmente no transporte rodoviário, responsável por cerca de 65% da movimentação de cargas no país. A expectativa é que a reforma tributária, ao unificar bases de informações hoje dispersas entre os Estados, contribua para melhorar a qualidade do planejamento no médio prazo.

Os dois especialistas convergem na avaliação de que a governança será decisiva para a perenidade do PNL 2050. Resende defende a criação de uma instância “guardiã” do plano, com participação de instituições não governamentais, universidades, órgãos de controle e Congresso Nacional, capaz de blindar o planejamento contra ciclos políticos. Girard vai na mesma linha e sugere um órgão suprapartidário e autônomo, responsável por assegurar a continuidade das diretrizes ao longo do tempo.

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Iniciativa privada

No financiamento, a avaliação é que a maior parte dos investimentos deverá vir da iniciativa privada, por meio de concessões e parcerias público-privadas. O governo estima que a carteira ferroviária associada ao PNL 2050 possa atrair cerca de R$ 140 bilhões em investimentos diretos, com potencial de alavancar valores ainda maiores ao longo do desenvolvimento dos projetos. “A previsibilidade regulatória e jurídica é essencial para o investidor de longo prazo”, afirma Girard.

Em consulta pública até 18 de janeiro de 2026, o PNL 2050 é o primeiro plano formulado sob as diretrizes do Planejamento Integrado de Transportes (PIT). Para os especialistas ouvidos por Transporte Moderno, o desenho técnico é mais robusto do que em experiências anteriores. O principal desafio agora é garantir que o planejamento sobreviva às alternâncias políticas e se consolide como um projeto permanente para o país.

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