São Paulo pode ser ponto de partida para a inspeção veicular no país

Cerca de 50% das emissões veiculares vêm de caminhões antigos, de padrão Euro 3 ou anterior

Aline Feltrin

O secretário de projetos estratégicos do governo de São Paulo, Guilherme Afif Domingos (PSD) defendeu que o estado de São Paulo tem condições para ser o ponto de partida para a implantação de um programa nacional de inspeção técnica veicular (ITV). A medida é essencial para aumentar a segurança nas estradas e impulsionar a renovação da frota de veículos, sobretudo de pesados.

“Se o veículo não passar, ou repara ou é recolhido. E esse recolhimento precisa ser feito em desmanches oficializados, alimentando a indústria de reciclagem siderúrgica, dentro de uma lógica de logística reversa”, afirmou Afif. Para ele, a inspeção deve ser vista como política pública de segurança e meio ambiente, e não como uma pauta meramente regulatória.

O debate ganhou força nesta semana, durante o Congresso Expo Fenabrave, quando Cláudio Sahad, presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças) cobrou do governo e do Congresso prioridade na criação do ITV. Segundo ele, cerca de 50% das emissões veiculares vêm de caminhões antigos, de padrão Euro 3 ou anterior.

“O problema não é apenas ambiental. Muitos desses veículos circulam com falhas graves de freio e suspensão, aumentando o risco de acidentes. A inspeção é para tirar das ruas caminhões inseguros e poluentes”, disse.

O executivo defendeu ainda que é preciso linhas de crédito específicas para os transportadores que precisarem substituir veículos reprovados. “Não adianta proibir o caminhão de rodar sem dar condições para o dono trocá-lo por um modelo mais moderno e limpo.”

Ele também rebateu a ideia de que a medida seja “impopular”. “O que deve ser impopular é defender algo que coloca vidas em risco. Um político que apoia a inspeção veicular deveria ganhar votos, porque está do lado da segurança e da saúde pública. Precisamos inverter essa lógica.”

Base para renovação da frota

A Associação Nacional das Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), entidade que reúne as montadoras, avalia que a implantação da inspeção técnica veicular é peça-chave não só para retirar veículos inseguros de circulação, mas também para estruturar programas de renovação da frota.

Segundo o presidente da associação, Igor Calvet, as fabricantes já estão se preparando para metas de reciclabilidade e rastreabilidade do ciclo de carbono dos veículos ‘do berço ao túmulo’ até 2032. Algumas empresas, como a Stellantis, já anunciaram investimentos nessa área.

“Mas é importante separar os papéis. A desmontagem e a reciclagem fazem parte da responsabilidade das empresas. Já o ITV é atribuição do poder público, porque está diretamente ligado à segurança e à saúde”, afirmou o executivo.

Frota sem inspeção

Se o problema da frota antiga concentra emissões e aumenta o risco de falhas mecânicas, outro ponto frágil do sistema é o trânsito de veículos sinistrados sem qualquer inspeção obrigatória.

Dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep) mostram que, já em 2019, a frota de veículos com indenização integral por colisão ultrapassava 1 milhão de unidades — mas apenas uma fração mínima passou pela vistoria que resultaria no Certificado de Segurança Veicular (CSV).

Na prática, veículo com danos estruturais severos continuam circulando ou sendo revendidos como se fossem plenamente seguros. “É um risco real e recorrente. A falta de registro permite fraudes e compromete a segurança de motoristas, passageiros e pedestres”, afirma Daniel Bassoli, diretor- executivo da Federação Nacional da Inspeção Veicular (Fenive).

A Polícia Rodoviária Federal tenta corrigir a lacuna com o CST – Comunicação de Sinistro de Trânsito, sistema digital lançado em 1.º de julho de 2025. Ele permite classificar danos de veículos em acidentes sem vítimas, que antes não geravam registro formal. A expectativa é que o CST se torne referência para integrar bancos de dados de Detrans, seguradoras e órgãos de fiscalização.

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