Produção de caminhões começa a sinalizar retomada

Com a queda prevista do PIB em 7%, a produção mensal de 9.000 caminhões não deverá se manter nos próximos meses

A indústria de caminhões registrou em junho a venda de 8.954 veículos, crescimento de 85,8% em comparação a maio, que teve 4.819 unidades comercializadas no país, e de 16,5% sobre junho de 2019, cujas vendas somaram 7.688 unidades. Mas no primeiro semestre acumulou queda de 19,1%, ao emplacar 37.860 veículos, ante 46.782 unidades vendidas no mesmo período de 2019, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).
Gustavo Bonini, vice-presidente da Anfavea, atribui o crescimento nas vendas de caminhões em junho ao represamento que ocorreu nos meses de abril a maio, por causa da pandemia do coronavírus e de fatores pontuais, como o cronograma de entrega em lotes e a inclusão do pacote de manutenção algumas negociações. “No início da pandemia alguns contratos foram renegociados para entregas futuras e estamos vendo isso refletir agora em junho. Têm segmentos com a característica de incluir no pacote algum implemento na sua entrega, o que afeta os números de vendas. Por isso, que o mercado de caminhões tem que ser analisado ao longo de dois ou três meses para conseguir acompanhar alguma tendência”, comenta Bonini.
Os números apresentados pela Anfavea mostram que o mercado de caminhões continua sendo impulsionado pelo agronegócio, ao registrar em junho a venda de 4.617 modelos pesados, aumento de 99,4% sobre maio, que teve 2.315 unidades vendidas no país. Os semipesados tiveram um avanço de 62,3%, com 2.103 veículos emplacados, ante a venda de 1.296 unidades no mês anterior. Apresentam também uma recuperação dos modelos leves, que vendeu 819 veículos, 68,2% a mais que maio (487 unidades), e dos médios, cujas vendas atingiram 890 unidades, 95,6% a mais que maio (455 unidades), por causa do aumento da demanda pelo transporte de produtos essenciais e o comércio eletrônico, que cresceu durante a pandemia. “Esses segmentos que estão movimentando o setor de transporte urbano de carga”, observa Bonini.

Exportações – Nas exportações o resultado também ficou positivo em junho, com 1.230 caminhões vendidos ao exterior, 93,4% superiores a maio que teve 636 veículos exportados, e 17,7% acima de junho de 2019, cujo volume exportado somou 1.045 unidades. Mas no primeiro semestre as vendas externas caíram 19,2%, com 4.842 caminhões, ante o embarque registrado de 5.991 veículos nos seis meses de 2019.
A explicação de Bonini para a melhora na exportação de caminhões em junho é semelhante ao que ocorreu no Brasil, com o represamento nas vendas nos meses de abril e maio por causa da crise do Covid-19. “A leitura que eu faço para caminhões é que o percentual de crescimento ficou estável em todos os segmentos na exportação. De maio para junho o aumento foi mais significativo nos modelos leves (119,3%) e nos médios (150%) porque esses veículos ficaram represados nos países por causa da crise e teve eventual suspensão e renegociação nas entregas, retomando os embarques em junho, conforme havia sido comentado na coletiva da Anfavea no mês anterior sobre o represamento das vendas no exterior por causa do agravamento da crise nos países da América Latina.”
Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea, afirma que, além de problemas logísticos, burocráticos e resíduos tributários, o Brasil ainda enfrentará outro problema adicional na exportação, que é a queda na demanda mundial por conta da crise que os países estão enfrentando. “Estimativas indicam que a indústria automobilística mundial apresentará queda de 90 milhões de veículos para 70 milhões de veículos ao ano, aumentando ainda mais a ociosidade no mundo e os países que tiverem mais competitividade poderão ajudar suas montadoras a exportar para os diversos mercados no mundo. Isso se torna ainda mais necessário a aceleração da redução do Custo Brasil, com a simplificação e desburocratização, que todos estão cansados de falar e ainda não vemos uma realização concreta nessa direção”, afirma Moraes.
Diante deste cenário, a expectativa da Anfavea é que a exportação de veículos pesados (incluindo caminhões e ônibus) tenha uma queda de 43% e alcance 12 mil unidades. A previsão feita em janeiro era que as exportações caíssem 22,7%, ficando em 16 mil veículos, ante as 21 mil unidades de modelos pesados exportados em 2019.
O presidente da Anfavea comenta que a pandemia está afetando os principais mercados em que as montadoras atuam, começando pela Argentina que, além da questão da pandemia tem o problema do câmbio e dificuldades financeiras, depois vêm o Chile, a Colômbia, Equador e outros países, e temos observado uma queda substancial nas vendas para o mercado externo.
Em valor as exportações da indústria automobilística caíram 40,8% no primeiro semestre, totalizando US$ 2,97 bilhões, ante os US$ 5 bilhões que foram exportados de janeiro a junho de 2019. “Se for mantido esse ritmo até o fim do ano, dependendo de como ficará a pandemia nesses países, as exportações atingirão US$ 6 bilhões em 2020”, prevê Moraes e lembra que o setor já chegou a exportar mais de US$ 10 bilhões.

Produção – Com a melhora nas vendas internas e no exterior a produção de caminhões em junho aumentou 39%, totalizando 5.634 veículos, enquanto em maio saíram da linha de montagem 4.054 unidades. Comparado a junho de 2019 (9.993 veículos) houve uma queda de 43,6% e no primeiro semestre a retração foi de 37,2%, com 34.797 caminhões fabricados, ante 55.396 unidades nos seis meses de 2019.
“O crescimento na produção em junho já era esperado porque o mês de abril foi péssimo e maio foi ruim, mas o número do primeiro semestre reflete mais a realidade que estamos passando neste momento”, afirma Bonini.
A estimativa da Anfavea é que a produção de veículos pesados (incluindo caminhões e ônibus) termine 2020 com uma queda de 42%, alcançando 82 mil veículos. A previsão feita em janeiro era que seriam fabricados 160 mil veículos pesados este ano, aumento de 13,4% sobre os 141 mil veículos produzidos em 2019.
Para as vendas, a Anfavea prevê uma diminuição de 39%, com 75 mil veículos pesados emplacados no país. Em janeiro a estimativa era de incremento de 16,9%, chegando a 143 mil veículos vendidos no país, ante os 122 mil que foram comercializados em 2019.
O presidente da Anfavea informou que todas as fábricas retomaram a produção, mas estão voltando em um turno em velocidade menor por conta dos cuidados com a saúde dos empregados, e as que retomaram os dois turnos não é para aumentar a velocidade da produção, mas para aumentar o distanciamento e garantir a maior segurança para os trabalhadores. “Em julho todas as fábricas estarão rodando em ritmo reduzido por causa da segurança na saúde, mas também olhando demanda que está sendo acompanhada diariamente”, afirma Moraes.
Ao comparar a crise atual enfrentada pelo país, o presidente da Anfavea recorda que a principal crise foi em 1981 (do petróleo), quando o setor caiu 41% e a recuperação foi de 5% ao ano. Na crise de 1987 a retração foi de 33%, com recuperação de 7% ao ano. Em 1988-89 (crise da Ásia e do dólar), a redução foi de 35%, ritmo de 6% ao ano e em 2015-2016 o declínio foi de 41%, com recuperação de 11% ao ano. “Se a recuperação ocorrer ao ritmo de 11% ao ano o setor automotivo voltará ao patamar de 2019 somente em 2025. Essa é a melhor hipótese, considerando a recuperação do passado e isso significa a perda de 3,5 milhões de veículos comparado com a base de 2019.”
Moraes afirma que a Anfavea está olhando não somente o que acontece em 2020, mas tentando imaginar como poderá ocorrer a recuperação da indústria automobilística e o que isso significa. “Vários CEOs têm comentado sobre esse tema e indicando que a recuperação do setor automotivo vai ser mais lenta e mais difícil e as razões são claras, pois temos um nível alto de desemprego no Brasil e vai aumentar até o fim do ano. Ainda temos uma confiança baixa na economia e alguns setores que estão voltando de forma mais rápida apresentam características diferentes. Nós achamos acha que existe espaço para crescer, mas considerando esse cenário que estamos vendo hoje, esse retorno se daria nos próximos cinco anos.”
Bonini acrescenta que, por causa da queda de 7% prevista para o PIB, a produção mensal de 9.000 caminhões em média não deve se manter nos próximos meses. “Nem mesmo o crescimento do agronegócio será suficiente para impulsionar o mercado de caminhões e fazer com que sai na frente de todo setor automotivo, com uma retomada mais rápida.”

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